Dão → Belém · Nacionalidade portuguesa

Do Dão ao Amazonas

Dois portugueses nascidos à beira de rios estreitos que foram fazer a vida no gigantesco Amazonas

Carlos da Costa Souza nasceu às margens do rio Dão e deixou a sua terra ainda muito jovem, rumo ao Rio de Janeiro. Mas não era o mar que atraía o lusitano. Era o rio. Em poucos anos, trocou a capital carioca pela cidade às margens do Guamá: Belém do Pará.

O pouco que a família sabia

Quando os netos de Carlos nos procuraram, sabiam três coisas. Que o avô era português. Que tinha sido dono de um barco que navegava pelo Amazonas. E que tinha se casado com uma mulher de família portuguesa. De onde ele vinha, em que terra tinha nascido, como tinha chegado à Amazônia, ninguém sabia dizer.

O primeiro caminho foi verificar se Carlos mantinha vínculo com o consulado. Os comerciantes portugueses costumavam fazer a inscrição consular, porque era a forma de conservar, longe de casa, um laço formal com Portugal. Mas a primeira pista concreta veio de outro lado: localizamos a chegada de Carlos ao Brasil, e ela não era em Belém. Seu navio tinha entrado pelo Rio de Janeiro.

A pergunta que o Rio abriu

Se Carlos desembarcou no Rio, por que foi viver em Belém? A resposta apareceu quando encontramos o irmão dele. Os dois tinham emigrado para destinos diferentes, um para o Rio de Janeiro, o outro para Belém. O irmão estava no Pará havia mais tempo e já tinha feito a vida no comércio. Em algum momento, Carlos decidiu deixar a capital e subir para o norte, para trabalhar ao lado dele.

Não era uma escolha rara. Muitos portugueses se estabeleciam numa cidade brasileira e, anos depois, mudavam para outra, atrás de um parente, de uma oportunidade ou de uma promessa. Já contamos aqui a história de um português que passou por Belém antes de se fixar no Recife. Na Amazônia, esse movimento ganhou força com a borracha: portugueses instalados em Belém subiam para o Amazonas e seguiam para as terras que hoje formam o Acre, Rondônia e Roraima. A imigração portuguesa não terminava no porto de chegada.

De caixeiro a dono de barco

Em Belém, Carlos começou como tantos jovens portugueses de sua geração: como caixeiro. Os dois irmãos trabalharam lado a lado atrás do balcão até o dia em que abriram, juntos, uma casa comercial.

Foi essa sociedade que devolveu à família a origem de Carlos. Sociedades comerciais formalizadas deixavam atos constitutivos, os documentos que davam existência legal à firma e costumavam qualificar cada sócio com os seus dados pessoais: nome, estado civil, nacionalidade e naturalidade. Foi nos atos constitutivos da casa dos dois irmãos que encontramos o lugar de nascimento de Carlos, uma terra às margens do Dão. A partir daí, a história inteira pôde ser reconstruída.

Mas o balcão não era a sua paixão. Carlos vendeu a sua parte ao irmão e comprou um barco. Abriu uma rota entre Belém e Manaus e passou a viver no vai e vem do Amazonas.

O encontro de dois rios

Foi nessas viagens que conheceu uma jovem portuguesa como ele, filha de portugueses e já estabelecida no Brasil. Ela também tinha nascido à beira de um rio: o Varosa, que desce em direção ao Douro. Os dois se casaram.

Por coincidência, ou nem tanto, eram dois portugueses nascidos às margens de rios estreitos que foram se encontrar diante do Amazonas, o rio de maior vazão do planeta. E ali fizeram a vida inteira. Muitas vezes ela embarcava com o marido e seguia com ele rumo a Manaus. Se a história da imigração portuguesa é cheia de mulheres que ficaram esperando, esta é também a história de uma mulher que foi junto.

Foi no vai e vem do rio que o casal criou os filhos. Para eles, o Amazonas era um mar, comparado aos rios estreitos que os viram nascer.

O caminho inverso

Os netos de Carlos chegaram até nós sem saber de onde o avô tinha vindo. Saíram sabendo o porto em que ele desembarcou, o irmão que o chamou para o norte, a casa comercial que os dois abriram, o barco que ele preferiu ao balcão e a terra, às margens do Dão, em que tudo começou. Com esses documentos, todos eles puderam fazer o percurso inverso e reencontrar a nacionalidade do avô.

Hoje, são os descendentes de Carlos que deixam as margens do Amazonas rumo ao Dão.

Na Consultoria Mnésis, é esse caminho que reconstruímos: de volta, rio acima, até a nascente de cada família.

A sua família também tem uma história assim.

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