Quando a família de Manuel Nascimento Vasconcelos me procurou, eu ainda estava no início da carreira. Tinha alguma experiência, o suficiente para confiar nas técnicas que conhecia, mas nada que me preparasse para o caso que se tornaria o mais longo da minha vida. Passei seis anos atrás desse português. E, ao contrário do que se imagina, o problema nunca foi a falta de documentos. Foi o excesso.
Ele fora um homem de muitos rastros. Vivera em Recife no início do século vinte, quando havia ali uma comunidade portuguesa considerável. Teve dois casamentos e muitos filhos. Foi comerciante, dono de um bar e de um bilhar, saiu nos jornais, respondeu a uma ação judicial. Cada uma dessas coisas costuma bastar para revelar a naturalidade de um imigrante, porque num assento, num processo, numa qualificação de autos, quase sempre alguém anotou de onde a pessoa veio. Eu tinha todas essas portas diante de mim. Nenhuma se abriu.
Muitos rastros, nenhuma origem
Comecei pelo caminho de sempre e ele me levou longe, mas nunca ao lugar. Pelo registro de nascimento de um filho, descobri uma coincidência que me tocou de perto. Antes de Recife, Manuel passara por Belém. Saíra de Portugal, aportara no Pará, casara na minha cidade com uma portuguesa, e só depois seguira para Pernambuco, onde enviuvou e voltou a casar. Fui atrás disso com esperança. Mas nenhum dos dois casamentos declarava a origem dele. O processo judicial dizia apenas "português". E nos fundos consulares de Belém não havia nada, porque Belém fora só uma passagem, uma estação breve na vida daquela família.
Então segui os outros rastros, um a um. Fui à junta comercial, porque um comerciante deixa registro. Fui ao memorial do judiciário de Recife, que guarda um dos grandes fundos do país, atrás das qualificações dos autos. Fui a arquivos, a listas de embarque para Belém, a listas de passaporte. Cheguei a encontrar o navio em que ele viera, saído do porto de Lisboa, mas a data caía fora do período em que os processos de passaporte foram guardados, e nem o navio o entregou. Eu tinha o navio, o casamento, a mãe, os filhos. Só não tinha ele. Todas as trilhas, sem exceção, terminavam na mesma palavra. Português. E nada mais.
Olhar para o lado
Uma coisa que aprendi, e que este caso me ensinou como nenhum outro, é que, quando a trilha do próprio homem não leva a lugar nenhum, é preciso parar e olhar para o lado, para as pessoas ao redor dele. Um caminho me chamou a atenção. No segundo casamento, o assento dizia que o pai já era falecido, mas que a mãe estava viva e morava em Recife. Uma mãe viva na cidade era uma fonte nova. Procurei o óbito dela por toda parte. Havia menções a ela, mas o registro não aparecia. Tentei a primeira esposa, portuguesa como ele, na hipótese de que gente da mesma região casa entre si. Localizei a aldeia dela, mas não era a dele. Fui às testemunhas das habilitações de casamento, porque muitas vezes uma delas declara conhecer o noivo desde Portugal, e isso aponta o lugar. As de Manuel, porém, o conheciam de Recife. Cada porta lateral que abri dava para o mesmo pátio vazio.
E faltava-me o que costuma salvar esses casos, a memória da família. Os filhos eram pequenos demais quando o pai morreu. Não guardaram uma história, uma frase, o nome de uma vila. Não havia gaveta de antepassado para revirar. Havia apenas um retrato antigo, daqueles repintados à mão, e um sobrenome.
Fora do roteiro
Numa das minhas viagens a Recife, decidi procurar por onde ninguém costuma procurar. Os sites clássicos, os que todo historiador consulta, já haviam falhado. Fui ao cemitério ver a sepultura, na esperança de uma data, de encontrar a mãe enterrada junto. Nada. Foi então que soube da existência de um livro guardado num dos arquivos da cidade, fora de qualquer índice, fora do roteiro habitual da pesquisa. Era uma relação de portugueses estabelecidos em Recife, mais de cinco mil nomes, entre 1909 e 1920. Digitalizei aquele livro página a página. E foi ali, no meio de milhares de conterrâneos, que dei de cara com ele.
O livro ainda me entregou o que seis anos não tinham entregado. Manuel tinha um irmão vivendo em Recife, que em nenhum momento cruzara com qualquer das trilhas que eu seguira. E, enfim, a origem. Manuel Nascimento Vasconcelos era transmontano. Um homem de trás dos montes, de uma vila encravada naquele Portugal de serra e pedra, longe do mar por onde partira. Depois de seis anos, o retrato repintado tinha, finalmente, um chão.
O que se ganha em seis anos
Não gosto de dizer que perdi seis anos naquele caso, porque a palavra perder é pesada demais e, no fundo, falsa. Eu ganhei muito. Ganhei a experiência de lidar com a frustração. Aprendi que muitas trilhas não levam a lugar nenhum, e que saber abandoná-las a tempo também é método. Aprendi a olhar para o lado. E, digitalizando e indexando aquele livro, garanti que nunca mais perderia seis anos procurando um português em Recife, porque o que uma vez me custou tanto agora está guardado e ordenado.
Mas o que mais ganhei foi a família. Acompanhei a dor deles, a espera, e no fim recebi a sua confiança e a sua gratidão, porque nunca desisti da pesquisa. Digo isso aos meus clientes com honestidade. Às vezes eu entrego um relatório informando que o documento não foi localizado, porque isso acontece e eu não invento uma origem para agradar ninguém. Mas eu nunca esqueço o nome de um pesquisado. Este caso ficou parado meses seguidos, mais de uma vez. E, ainda assim, todas as vezes em que eu voltava a Recife por outro trabalho, ele estava ali, na minha memória, esperando.
A família Vasconcelos ficou comigo. Fizemos a nacionalidade do filho, depois a dos netos, e caminhamos agora para a dos bisnetos. Depois de tantos anos atrás de um só homem, tive o privilégio de ver bisnetos dele nascerem e crescerem. O que começou como a busca de uma certidão terminou como o mais longo dos laços. E o retrato antigo, aquele que a família repintava sem saber quem exatamente ali estava, hoje tem nome, tem irmão, tem uma vila detrás dos montes e uma descendência que se estende por gerações.
