Campânia → São Paulo · Imigração italiana

Quando Di Puorto virou do Porto

Desembarque de imigrantes italianos no porto de Santos em 1907
Desembarque de imigrantes italianos no porto de Santos, 1907. Fotografia de T. H. Wendt. Domínio público. Imagem de contexto, quatorze anos posterior à chegada da família.

Uma família italiana atravessou o Atlântico em 1893. O sobrenome atravessou junto, mas desembarcou com outra forma, e foi preciso reconstruir quatro documentos em sequência para provar que se tratava da mesma gente.

Caso real publicado com autorização da família.

Durante décadas a família conheceu o nome em três versões. Porto, nos papéis mais antigos guardados em casa. Do Porto, nas certidões que vieram depois. E Du Porto, na memória falada, que ninguém sabia de onde tinha saído e que, justamente por isso, quase todo mundo tratava como confusão de algum parente antigo.

A memória falada estava mais perto do original do que qualquer certidão brasileira.

Antes de todas essas formas havia Di Puorto.

A pesquisa partiu de um único documento, uma certidão de casamento celebrada no interior paulista em 1916, e terminou em duas linhagens estrangeiras, uma italiana e uma espanhola, que se encontraram numa sala de audiências de cidade pequena.

Um nome anterior à Itália

Francesco Di Puorto nasceu em 1857, numa aldeia da planície agrícola ao norte de Nápoles, então parte da província de Terra di Lavoro, no Reino das Duas Sicílias. A Itália, como país, ainda não existia. Ele tinha pouco mais de três anos quando o reino desapareceu, incorporado ao novo Estado italiano proclamado em março de 1861. Nasceu, portanto, súdito de uma monarquia que deixou de existir durante a sua infância.

O registro de nascimento é uma fotografia silenciosa da origem social da família. O pai, Giuseppe Di Puorto, tinha 39 anos e foi declarado bracciale, termo que no Sul designava o trabalhador rural que vivia da força dos próprios braços, sem terra. A mãe, Rosa, de 27 anos, trazia o mesmo sobrenome do marido, o que numa aldeia daquele tamanho costuma dizer menos sobre parentesco próximo do que sobre a concentração de pouquíssimos sobrenomes num território estreito. O próprio ato declara que nem o pai nem as testemunhas sabiam escrever.

Há ainda um detalhe administrativo que vale mais do que parece. À margem do ato, o pároco devolveu ao oficial do estado civil o aviso que lhe fora remetido, declarando ter batizado Francesco naquele mesmo dia. No sistema de registro civil herdado do período napoleônico e mantido pela Restauração bourbônica, o ato civil e o sacramento caminhavam amarrados um ao outro, e a nota marginal documenta a conferência entre as duas autoridades. Para o pesquisador, isso significa que cada nascimento daquele período deixou, em tese, dois rastros, e que a ausência de um pode ser suprida pelo outro.

Francesco e Maria, 1880

Em novembro de 1880, aos 22 anos, Francesco casou-se na casa comunal com Maria Capone, da mesma idade, nascida e residente na mesma comuna, filha de Domenico Capone, já falecido. No ato de casamento ele aparece como contadino, e não mais como bracciale, a profissão do pai. Os dois termos se sobrepõem bastante na prática, e seria forçar o documento tirar dali uma ascensão social. Mas a mudança de palavra está no papel, e registra ao menos uma diferença de posição dentro do mesmo mundo camponês.

A profissão de Maria diz algo sobre o lugar. Ela era fiandeira, e aquela planície tinha longa relação com o cultivo do cânhamo, com a fiação ocupando parte importante do trabalho feminino nas famílias camponesas.

Francesco assinou o próprio nome ao pé do registro. Maria e as testemunhas declararam não saber escrever. Entre o pai que não assinava, em 1857, e o filho que assinava, em 1880, cabe boa parte da história da alfabetização rural no Sul da Itália.

O Aquila chegou a Santos em 1893

Em junho de 1893 a família inteira desembarcou no porto de Santos, vinda no vapor Aquila, numa leva de contratação para as fazendas de café paulistas, o tipo de fonte que examinamos em O que uma lista de passageiros não diz. O momento é exato: era a fase de maior intensidade da imigração italiana subsidiada por São Paulo, quando o governo do estado custeava a vinda de famílias inteiras de colonos e os camponeses do Sul passavam a figurar em número crescente entre os que partiam.

Não foi uma migração individual. Foram cinco pessoas atravessando o oceano de uma vez: Francesco, Maria e três filhos, Rosa, de 11 anos, Giuseppe, de 8, e Domenico, de sete meses.

O registro de entrada dá a Francesco 36 anos. Ele tinha 35, e completaria 36 em novembro. Divergências desse tipo são a regra, não a exceção, em declarações feitas de viva voz por quem acabava de desembarcar, e não comprometem a identificação desde que a diferença seja pequena, explicável e exposta.

E o sobrenome, naquele registro, não é Di Puorto nem Porto.

É De Puerto.

De Puorto, De Puerto, Porto, do Porto

Puorto é a forma dialetal campana de porto. O nome que a família levou para o navio já era, em italiano padrão, uma palavra estranha, e desembarcou num país onde ninguém a reconhecia. O registro de imigração conserva o instante intermediário da transformação: uma forma que não é a italiana nem a brasileira, escrita por quem ouviu o nome uma única vez e fez o que pôde com ele.

Cinco anos depois, num assento de batismo brasileiro, o nome já teria perdido o resto do caminho.

A sequência completa, documento a documento, é esta: Di Puorto na Itália, De Puerto no desembarque, Porto no primeiro registro brasileiro, do Porto nos documentos seguintes. E, fora do papel, Du Porto na memória da família, que guardou o eco do Di quando as certidões já tinham seguido outro rumo.

Nenhuma dessas variantes indica pessoas diferentes. Todas indicam a mesma pessoa atravessando línguas, escrivães e gerações. O fenômeno tem nome e tem regra, e está tratado em A variação nominal na documentação de imigração.

Três nomes de criança que reforçam a identificação

Os nomes dos filhos que desembarcaram em 1893 não são casuais, e é aqui que o caso deixa de depender de coincidência.

Os nomes das três crianças também coincidem com um padrão nominativo tradicional documentado em muitas famílias do Sul da Itália, em que a primeira filha recebia o nome da avó paterna, o primeiro filho o do avô paterno e o segundo o do avô materno. A menina mais velha chamava-se Rosa, como a mãe de Francesco. O primeiro menino, Giuseppe, como o pai de Francesco. O segundo, Domenico, como o pai de Maria Capone.

Três crianças, três avós, na ordem exata prevista pelo costume.

Foi essa coincidência, e não uma busca por sobrenome, que orientou a primeira aproximação entre as duas famílias documentadas. Um sobrenome deformado pode enganar. Nomes que se repetem de uma geração à outra, seguindo um padrão que a própria família provavelmente já não sabia estar observando, formam um indício difícil de atribuir ao acaso, e que se soma ao restante da cadeia.

Nicolina, 1898

Nicolina nasceu em setembro de 1898, no oeste cafeeiro paulista, e foi batizada aos quarenta dias de vida. O assento a registra como filha de Francisco Porto e Maria Capone.

É nesse documento que a transformação do sobrenome se fixa. O Di Puorto que saiu da Itália virou simplesmente Porto no papel brasileiro, e nos registros posteriores, do Porto.

O nome da mãe, ao contrário, atravessou intacto.

Maria Capone foi a ponte

Foi a permanência do nome de Maria que manteve a família unida documentalmente. O registro italiano mostra Francesco Di Puorto casado com Maria Capone. O registro brasileiro mostra Francisco Porto ao lado de Maria Capone, com a grafia italiana exata, a mesma do ato de 1880.

A partir daí, a identificação se apoia em quatro apoios simultâneos: a coincidência do nome do marido na forma transformada e do nome da esposa na forma original; a cronologia coerente, com o casamento italiano precedendo os nascimentos brasileiros; a evolução do sobrenome documentada passo a passo, sem saltos; e o sistema de nomes dos filhos apontando para os quatro avós corretos.

Nenhum desses elementos, sozinho, provaria alguma coisa. Juntos, formam um conjunto documental muito forte para a identificação.

Vale um aviso de método, porque contraria a intuição de quem começa a pesquisar. Nem toda deformação de nome vem do século XIX. Uma transcrição moderna da certidão de casamento de Nicolina registrou a mãe como Caponi, e não Capone. O erro tem menos de duas décadas e foi produzido por um cartório brasileiro digitando um nome italiano. Quem pesquisa hoje não enfrenta apenas os ouvidos dos escrivães de 1898, mas também os teclados de 2010.

do Porto, 1916

Em janeiro de 1916, aos 17 anos, Nicolina casou-se no interior paulista com um jovem espanhol, Antonio Abellán, que chegara ao Brasil aos treze anos, passara um período na Argentina e havia pouco tinha voltado. Ela não sabia escrever, e assinou a seu rogo um José do Porto, cuja relação com a noiva o documento não esclarece, mas cujo sobrenome basta para situá-lo dentro da mesma família.

A assinatura a rogo é um detalhe que muita gente ignora e que costuma render. Quando a pessoa não assinava, alguém assinava por ela, e esse alguém podia ser um parente, conhecido ou pessoa próxima, razão pela qual a assinatura a rogo pode fornecer uma pista adicional de relacionamento.

Naquele registro o sobrenome já está na forma que a família carregaria daí em diante.

O que a pesquisa devolveu

Esta família não procurava um país. Procurava um nome.

O que a reconstrução documental estabeleceu foi o seguinte: o Francisco Porto dos registros brasileiros é o Francesco Di Puorto nascido em 1857 no antigo Reino das Duas Sicílias; o sobrenome não desapareceu, foi adaptado em etapas verificáveis; os avós italianos de Nicolina chamavam-se Giuseppe e Rosa, e o avô materno, Domenico; e a localidade exata de origem, no interior da Campânia, foi identificada com segurança a partir dos registros civis do século XIX.

E o Du Porto da memória familiar, que todo mundo achava que era engano, era o mais fiel de todos. Era o que sobrou do Di.

A segunda metade desta história começou do outro lado do Mediterrâneo, no sudeste da Espanha, e passou pela Argentina antes de chegar à mesma sala de audiências em 1916. Está contada em Da Espanha ao Brasil, à Argentina e de volta.

A sua família também tem uma história assim.

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