Almería → Santos → Tucumán · Imigração espanhola

Da Espanha ao Brasil, à Argentina e de volta

Vista do bairro de San Cristóbal, em Almería, em cartão-postal do início do século XX
Almería, bairro de San Cristóbal, em cartão-postal do início do século XX. Autoria não identificada.

Aos treze anos, Antonio Abellán tinha nas mãos uma certidão de batismo expedida para produzir efeitos no estrangeiro. O papel atravessou o Atlântico com ele. A viagem dele, porém, ainda passaria por outro país antes de terminar.

Caso real publicado com autorização da família.

Em julho de 1906, numa paróquia do sudeste espanhol, o coadjutor extraiu a certidão de batismo de um menino chamado Antonio Abellán González. O documento declara expressamente que era emitido para produzir efeitos no estrangeiro.

A finalidade não era casual. Dois meses depois, aquela mesma folha de papel recebeu o carimbo da Hospedaria de Imigrantes de São Paulo, com data de setembro de 1906.

Antonio tinha treze anos.

Esta é a segunda metade de uma história que começou em Quando Di Puorto virou do Porto. Ali, uma família italiana mudou de nome ao atravessar o oceano. Aqui, um rapaz espanhol atravessa o Atlântico, cruza uma fronteira sul-americana e depois regressa ao Brasil.

Um menino da província de Almería

Antonio nasceu em novembro de 1892, na província de Almería, filho de Juan Bautista Abellán e de Francisca González Pérez. A certidão extraída de seu assento paroquial nomeia também os quatro avós, o que, para uma pesquisa feita mais de um século depois, equivale a duas gerações entregues num único papel.

A região da sua infância tinha vivido, em meados do século XIX, o auge de uma mineração de prata que enriqueceu a zona e depois entrou em declínio. No início do século XX, Almería já era uma das províncias que mais enviavam emigrantes, e o Brasil, com a lavoura cafeeira ainda demandando braços, figurava entre os principais destinos, ao lado da Argentina e de Cuba.

O caso de Antonio tem uma particularidade que raramente se consegue documentar: o próprio papel emitido na Espanha viajou com ele. A certidão deixou de ser apenas prova de um batismo e virou testemunha da travessia, carimbada pelas repartições de imigração por onde passou.

O que não sabemos

A documentação confirma a presença de Antonio no Brasil ainda adolescente. Não explica integralmente como viajou, nem permite afirmar com segurança quem o acompanhava.

Com treze anos, o mais provável é que tenha vindo com a família. Mas não localizamos, nos registros de entrada, assento correspondente aos pais. A ausência pode significar muita coisa: que viajaram por outra via, que entraram por outro porto, que o registro se perdeu, ou que ele veio mesmo acompanhado de terceiros.

Esse silêncio é importante, e não vai ser preenchido aqui. Em genealogia, uma lacuna documental não se resolve com a hipótese mais confortável. Sabemos que Antonio chegou. Sabemos que era muito jovem. Sabemos que sua certidão fora preparada na Espanha para uso fora do país. O resto permanece em aberto até que novos documentos apareçam.

Depois do Brasil, Tucumán

Anos mais tarde, Antonio reaparece na documentação. Não na Espanha e não em São Paulo.

Ele estava na Argentina.

Em junho de 1915, ao desembarcar em Santos, declarou que vinha de Tucumán, onde estivera estabelecido por cerca de três anos, e que antes desse período argentino já vivera cinco anos no Brasil. O registro anota ainda a procedência do embarque: Buenos Aires.

Vale fazer a conta, porque ela não fecha redondo. Entre a chegada de 1906 e o retorno de 1915 há nove anos. Cinco no Brasil e três em Tucumán somam oito. Sobra um ano sem destino declarado, o que é absolutamente normal em declarações feitas de memória diante de um funcionário, e que registramos aqui como o que é: uma folga, não um mistério.

Não sabemos por que Antonio deixou São Paulo e seguiu para a Argentina. Também não sabemos por que decidiu voltar. Atribuir saudade, fracasso, oportunidade econômica ou insatisfação seria inventar. O documento registra o movimento, e o movimento já é bastante.

O Hollandia e a circulação dentro das Américas

Antonio viajava no vapor Hollandia e tinha 22 anos quando pisou de novo em Santos.

Sua trajetória ilustra um aspecto frequentemente esquecido da imigração europeia para a América do Sul: o percurso nem sempre terminava no primeiro país de chegada. Imigrantes circulavam, tentavam outro destino, acompanhavam redes de parentes e conhecidos, seguiam oportunidades de trabalho e voltavam. A fronteira nacional que hoje organiza os nossos arquivos nem sempre organizava a vida de quem atravessava o continente.

Isso tem uma consequência prática direta para quem pesquisa. Procurar Antonio apenas na Espanha e no Brasil teria produzido um vazio de oito anos e, muito provavelmente, a conclusão errada de que se tratava de duas pessoas diferentes. Havia uma terceira peça no caminho, e ela não estava em nenhum dos dois países que a família conhecia.

Quando Abellán encontrou do Porto

Sete meses depois do retorno, em janeiro de 1916, Antonio casou-se no interior paulista, perante o juiz de paz, com Nicolina do Porto, filha de imigrantes italianos cujo sobrenome já tinha atravessado a própria série de transformações.

O registro daquele casamento parece, à primeira vista, um documento local. Não é. Dentro dele estão a Espanha, na naturalidade do noivo, e a Itália, na ascendência da noiva, além do Brasil onde ambos construiriam a geração seguinte. A Argentina não aparece, mas já fazia parte da biografia dele.

O documento também conserva as deformações produzidas pela circulação entre línguas. Juan Bautista Abellán, já falecido àquela altura, virou João Abellan. Francisca González Pérez virou Francisca Gonçales. O acento do sobrenome desapareceu. E a naturalidade do noivo foi escrita numa forma que não existe no mapa espanhol, resultado da troca entre b e v, comum quando um escrivão brasileiro transcrevia de ouvido um topônimo castelhano.

Foi preciso confrontar o registro brasileiro com a certidão de batismo para estabelecer que aquele lugar inexistente correspondia a uma localidade real do sudeste espanhol, e que o noivo de 1916 era o menino batizado em 1892.

Há ainda uma divergência de idade. Antonio declarou 22 anos no casamento, quando já tinha 23. Divergências assim são frequentes e não afetam a identificação: prevalece o registro de batismo, que é o documento mais próximo do fato, hierarquia que discutimos em Registro civil ou batismo.

Nicolina tinha 17 anos e dedicava-se aos trabalhos domésticos. Ele era lavrador. O ato ocorreu ainda sob a lei do casamento civil de 1890, e o assento menciona a leitura do seu artigo sétimo, sobre impedimentos matrimoniais, poucos meses antes de o Código Civil de 1916 entrar em vigor. Casaram-se, portanto, na estreita faixa final de um regime jurídico que estava prestes a ser substituído.

Espanhol, brasileiro e ainda espanhol nos papéis

Em 1920, Antonio naturalizou-se brasileiro. A partir dali, do ponto de vista do Estado brasileiro, estava documentado como brasileiro por naturalização.

Os documentos da família, porém, não acompanharam a mudança. Trinta anos depois, o registro de casamento do filho ainda o qualificava como espanhol.

A contradição é aparente e vale ser compreendida, porque aparece em quase toda pesquisa de imigração. Um registro civil informa nacionalidade de maneira descritiva, a partir da origem de nascimento, da declaração de quem está ali ou de uma informação repetida por hábito dentro da família. Um registro civil dessa natureza nem sempre certifica, por si só, a situação jurídica completa da nacionalidade. Antonio estava naturalizado brasileiro e continuou sendo chamado de espanhol pelos seus, e as duas informações pertenciam a planos diferentes da mesma identidade, uma legal e outra vivida.

Quem pesquisa precisa saber ler as duas sem confundi-las, e sem descartar o registro por causa da divergência.

Do campo à cidade, com sobrenomes vênetos no caminho

A geração seguinte levou a família para a capital. O filho de Antonio e Nicolina nasceu em 1927 num subdistrito de São Paulo profundamente marcado pela presença italiana, e em 1950 casou-se ali mesmo, já como escriturário. Em duas gerações, os documentos registram o percurso completo: da travessia transatlântica ao interior cafeeiro, do interior à metrópole, do trabalho rural ao emprego urbano.

Esse casamento de 1950 introduziu na árvore uma terceira origem imigrante, com os sobrenomes Bicego, Zangirolami, Andreotti e Giacomelli, todos de evidente formação italiana.

E aqui a história do nome se repete, agora em outro dialeto. No casamento dos bisavós desse ramo, celebrado em 1893, o vigário registrou o sobrenome da noiva como Giangerolami, e não Zangirolami. Não é erro: é a pronúncia vêneta sendo transcrita por um pároco que escrevia o que ouvia, num dialeto em que o z corresponde ao gi do italiano padrão, o mesmo tipo de apagamento que reconstruímos em A italiana que virou alemã. O mesmo fenômeno que transformou Di Puorto em Porto, aplicado a outra família, a outra região da Itália e a outro som.

Desse ramo, a documentação reunida ainda não estabeleceu o local de nascimento do ascendente mais antigo, e ele permanece aberto a investigação futura. Dizemos isso porque é o que os documentos permitem dizer.

O documento que atravessou com ele

Entre todos os registros localizados, a certidão espanhola de 1906 talvez seja a que melhor resume a história.

Ela foi produzida quando Antonio ainda era menino. Declarava que serviria no estrangeiro. Depois apareceu carimbada pela burocracia da imigração brasileira. Mais de um século adiante, voltou a ser útil, agora não para permitir uma viagem, mas para reconstruí-la.

É o que acontece com os documentos de imigração. Um papel criado para resolver uma necessidade imediata sobrevive à pessoa, muda de função e acaba fazendo o que ninguém pediu que fizesse. Primeiro identifica. Depois acompanha. Por fim, testemunha.

O que a pesquisa devolveu

Reduzida a uma árvore genealógica, esta história parece simples: um nome ligado ao seguinte, um pai, um filho, um casamento.

Os documentos mostram outra coisa. Cada uma dessas ligações esconde uma travessia, uma mudança de nome, uma língua diferente, uma fronteira e, no caso de Antonio, um país inteiro entre duas gerações.

O que a pesquisa devolveu a esta família foi a certeza de quem eram os quatro avós espanhóis, a localidade de origem no sudeste da Espanha, identificada com segurança apesar de estar escrita de forma inexistente no registro brasileiro, e os oito anos de circulação entre Brasil e Argentina que nenhuma memória familiar tinha conservado.

Ninguém em casa sabia da Argentina. O papel sabia.

A sua família também tem uma história assim.

Toda pesquisa começa com aquilo que a família ainda sabe. Conte-nos, e verifique se o seu antepassado está em nosso acervo de mais de 800 mil registros.

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