Paraná · Imigração vêneta

A italiana que virou alemã: Narciza Cecchinel

A italiana que virou alemã: Narciza Cecchinel
Tovena, comuna de Cison di Valmarino (Treviso). Fotografia de 1918 ou posterior.

Quando o cliente chegou até mim, a família toda se sabia de origem alemã. E não era um engano tolo. Havia o sobrenome germânico, havia o planalto paranaense povoado de alemães, havia gerações inteiras que só tinham casado dentro daquele mundo. Tudo, na superfície, dizia Alemanha. Mas, ao abrir a documentação, um nome me fez parar. No meio de tantos apelidos germânicos, numa geração antiga, aparecia uma mulher chamada Narciza.

Narciza não era um nome esperado naquele universo germânico. É um nome ligado ao santoral católico latino, comum em contextos portugueses, italianos, espanhóis e brasileiros, e que destoava fortemente do repertório nominal predominante naquele meio, onde se esperariam Wilhelmine, Bertha, Auguste, Frieda. Uma Narciza cercada de sobrenomes germânicos era uma dissonância. E dissonância, para quem faz este ofício, é o fio solto que se puxa. Ela podia ser uma brasileira que casou numa família alemã e adotou o sobrenome do marido, hipótese razoável. Mas a estranheza pedia teste, e o teste desmontou a certeza da família inteira.

Narciza não era alemã. Era filha de italianos. Mas provar isso foi mais difícil do que suspeitá-lo, e o caminho até a prova é a parte mais instrutiva desta história.

Vários documentos apontavam na mesma direção. A família estava mesmo em Morretes, e documentos de irmãos apontavam também para aquela localidade. Eu tinha, portanto, a cidade certa. Pedi então ao arquivo da diocese o batismo de Narciza, mas com um problema de origem: nenhum registro dela indicava com segurança o ano em que nascera. A data sobrevivia apenas de segunda mão, na qualificação dos pais dentro dos casamentos dos próprios filhos, e por isso pedi uma varredura larga, de quase uma década, sabendo por ofício que a idade declarada nem sempre coincide com a idade real. A resposta veio negativa. A paróquia não a encontrava.

É um momento difícil, o da negativa. Não porque prove que estamos errados, mas porque não prova nada. O arquivo apenas cala. E o historiador fica diante da dúvida de sempre: falhei no cálculo, ou o documento não existe? Eu sabia que a cidade estava certa, os outros registros me garantiam isso. Faltava achar Narciza dentro dela.

Foi aí que virei a estratégia. Em vez de insistir nela, fui aos pais. Se eu não conseguia entrar pela filha, entraria pela geração de cima. Já tinha encontrado o pai, Antonio, solteiro, num registro da colônia em 1879, o que estreitava a janela do casamento. Estimando a data do matrimônio pela idade provável da mãe e pelo nascimento de um outro filho que eu já localizara, pedi à diocese que buscasse o casamento do casal. E o casamento apareceu. Com ele na mão, pude fazer o cálculo ao contrário: recuar do casamento, contar os meses da primeira gravidez, e pedir ao arquivo que voltasse a olhar, agora numa janela mais estreita e mais certa. Dessa segunda vez, Narciza estava lá.

O batismo encerrou a dúvida. Fixou o nascimento em 28 de outubro de 1883, data que, como eu suspeitava, nenhum documento dela havia jamais declarado de forma direta. Ao casar, em 1901, Narciza dera-se por dezoito anos, quando ainda não os tinha completado. Não sabemos por quê; a idade no papel nem sempre batia com a idade real. Foi o batismo, feito diante do padre quando ela era bebê, que guardou a data que os outros registros preferiram arredondar.

A lição fica. Uma negativa de arquivo não é um beco; é um convite a entrar por outra porta. Quando o documento de uma pessoa se recusa a aparecer, muitas vezes é a documentação de quem está ao lado, os pais, os irmãos, os primos, que devolve o caminho. Narciza não se deixou achar de frente. Foi preciso encontrá-la pela borda.

Os pais dela vinham do Vêneto. O pai, Antonio Paolo Cecchinel Colet, nascera em Tovena, uma pequena localidade da comuna de Cison di Valmarino, na província de Treviso, em 1856, numa terra que naquele momento nem sequer era italiana ainda, pertencia ao Império Austríaco, e só passaria ao Reino da Itália em 1866. A mãe, Ambrozia Antoniazzi, chegara menina ao Brasil, no fluxo vêneto que desembarcou em Paranaguá em 1877 e foi assentado na Colônia Nova Itália, em Morretes. Antonio e Ambrozia casaram-se ali, em Morretes, em agosto de 1883, e Narciza nasceu ainda naquele mesmo ano. A mãe era, ela própria, pouco mais que uma adolescente, e já esperava a primeira filha, algo que a documentação matrimonial do período registra com alguma frequência. Narciza foi a primeira geração da linhagem já nascida em solo brasileiro.

Vale abrir aqui uma janela para a colônia, porque ela explica muita coisa. A Nova Itália era, na origem, um núcleo italianíssimo, o segundo grande experimento oficial de colonização vêneta da província, criado para acolher os retirantes de uma colônia anterior que fracassara. Mais de oitocentos imigrantes italianos. Mas o Paraná em torno dela não era italiano; era um mosaico. Já entre as poucas famílias que ocupavam aquele antigo engenho antes da chegada dos vênetos havia uma família de alemães. E, quando as gerações seguintes começaram a subir a Serra do Mar em direção ao planalto, para Campo Largo e Curitiba, entraram numa região densamente germânica, semeada de colônias mistas. A família não nasceu no meio dos alemães. Ela foi ao encontro deles.

E foi exatamente isso que aconteceu com Narciza. Em 1901, aos dezessete anos, ela deixou o litoral e casou em Campo Largo, no planalto, com Frederico Büsemeyer, sobrenome de clara formação germânica. A partir desse casamento, a origem italiana dela começou a desaparecer. E aqui está o coração desta história, o ponto que vale mais que qualquer árvore genealógica.

Nem sempre se pode ter os dois lados.

No sistema de nomes que herdamos, transmite-se o sobrenome do pai; o da mãe, salvo exceção, não passa adiante. Onde os ibéricos muitas vezes compunham o nome do filho com o apelido do pai e o da mãe, deixando a linha materna inscrita e visível por gerações, na família e no meio germânico em que Narciza entrou os filhos levavam só o sobrenome paterno. O resultado foi imediato. O filho desse casamento, Guilherme, nascido em 1902, já aparece nos registros apenas como Busmayer. Numa única geração, o sobrenome italiano da mãe evaporou. Não houve descuido, não houve esquecimento afetivo. Foi a própria gramática do nome que apagou a Itália, num só salto. O sobrenome guarda a linha do pai; a da mãe fica entregue à memória oral, que é frágil e se degrada depressa. Para os netos, Narciza já era só mais uma alemã entre alemães. O único traço que resistiu ao apagamento foi o seu primeiro nome, aquele Narciza latino e teimoso, a última testemunha da própria origem.

Há ainda um segundo fenômeno que este caso mostra com rara clareza, e que se vê no nome dos pais dela. Quando os italianos foram registrados no Brasil, o cartório e a paróquia grafaram o que o ouvido entendia. No casamento de 1883, Cecchinel Colet foi lavrado como Sechineli. Antoniazzi virou Antoniaci. Domenica, a avó, foi registrada como Masota Dominica. O escrivão não falsificava nada; registrava o nome conforme o som que compreendia, adaptando o nome estrangeiro à língua da terra. E esse processo não parou na chegada. Ao olhar para os ramos colaterais da família, os descendentes dos irmãos de Narciza, encontrei o mesmo Antoniaci já transformado, duas gerações depois, em Antonino num ramo, em Antonio noutro. O sobrenome italiano não só se deformou na fronteira; continuou escorregando de geração em geração, cada novo registro aproximando-o do que soava mais familiar a quem escrevia, até o apelido de família se dissolver num simples prenome brasileiro.

É por isso que um caso destes não se resolve olhando só a linha reta. Foi preciso olhar para os lados, para os primos, para os irmãos, para os ramos que ninguém pediu, e foi essa lateralidade que confirmou o que o nome de Narciza sussurrava desde o início. O historiador que se limitasse ao sobrenome poderia ter arquivado Narciza como alemã e nunca teria achado Tovena.

No fim, foi um nome de batismo que trouxe a família de volta ao Vêneto. Narciza atravessou três gerações disfarçada de alemã, e bastou reparar que o seu nome não combinava com o resto para desfazer o disfarce. A origem estava lá o tempo todo, guardada não num documento solene, mas na teimosia de um prenome que ninguém pensou em trocar.

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