A mulher que não mudava de nome · O Ofício do Historiador, Consultoria Mnésis

A mulher que não mudava de nome

O Ofício do Historiador

por Thiago Bezerra Vianna, historiador · Consultoria Mnésis

Quando um historiador que trabalha com genealogia se debruça sobre um documento antigo, ele não lê apenas o que está escrito. Lê também o que o costume da época permitia ou proibia escrever. E há um detalhe que, para olhos treinados, salta de uma certidão como um alarme silencioso, o nome da mãe. A forma como o nome de uma mulher aparece num assento diz, muitas vezes, mais sobre a verdade de uma família do que qualquer declaração feita diante do tabelião.

Comecemos por uma verdade que surpreende quase todo brasileiro. Na Península Ibérica, a mulher não costumava trocar de nome ao casar. Em Portugal, como na Espanha, na grande maioria das vezes, a esposa guardava o próprio apelido a vida toda. Havia exceções, principalmente quando casava com estrangeiros de origem anglo-saxônica, entre os quais a esposa adotar o nome do marido era o padrão. Casar não a fazia perder o nome de solteira nem a obrigava a assumir o do marido. Essa é a tradição, e os registros paroquiais anteriores ao século vinte a confirmam a cada página. A mulher portuguesa era, no papel, quem sempre fora.

Nós, brasileiros, somos herdeiros diretos da cultura portuguesa. Seria de esperar que seguíssemos a mesma regra. E, no entanto, fizemos o contrário. Vale entender por quê, porque é aí que a história fica interessante.

De onde vem o nome do marido

O costume de a mulher assumir o sobrenome do marido não nasce no mundo ibérico. Nasce no direito anglo-germânico, e tem até nome técnico. Chama-se coverture, uma doutrina do direito consuetudinário inglês pela qual, ao casar, a existência jurídica da mulher se fundia à do marido, a ponto de ela deixar de ter identidade legal própria. Sob esse princípio, a esposa passava a ser, na prática, uma extensão do marido, e tomar o nome dele era o símbolo natural dessa absorção. É desse arcabouço, e não do nosso, que vem a senhora que se assina com o nome do esposo.

No Brasil, esse hábito entrou pela porta da moda. Ao longo do século dezenove, com a abertura dos portos e a independência, a elite voltou os olhos para a França e a Inglaterra como medida de modernidade e civilização. Foi sob a influência francesa, e mais tarde no clima da Belle Époque, que as classes altas passaram a adotar o sobrenome do marido como sinal de distinção. O que começou como imitação de elite se espalhou, e nas primeiras décadas do século vinte já era quase obrigatório socialmente. O direito veio atrás do costume. O Código Civil de 1916, em vigor a partir de 1917, estabeleceu que a mulher assumia, pelo casamento, os apelidos do marido. O Estatuto da Mulher Casada, de 1962, reforçou a obrigação. E foi só em 1977, com a Lei do Divórcio, que a lei brasileira deixou de obrigar e passou a permitir que a mulher escolhesse. Por mais de meio século, no Brasil, mudar de nome ao casar não foi opção, foi imposição.

Repare na consequência. Enquanto a brasileira era obrigada por lei a trocar de nome, a portuguesa continuava, pela tradição e pela lei da sua terra, guardando o próprio. As duas margens do Atlântico caminhavam em sentidos opostos exatamente no mesmo período.

As que não tinham sobrenome

E há um segundo traço, ainda mais estranho aos nossos olhos. Muitas mulheres, em Portugal, sequer carregavam um sobrenome de família. Uma podia chamar-se apenas Maria José, Maria João, Maria da Purificação, Maria da Encarnação. Esses não são sobrenomes. São nomes de devoção, de consagração religiosa, acrescentados ao nome de batismo. A mulher do povo, sobretudo, muitas vezes atravessava a vida inteira sem um apelido de linhagem, identificada apenas pela sua devoção. Quem não sabe disso lê "Maria da Encarnação" e sai à procura de uma família Encarnação que nunca existiu.

O que o nome da mãe denuncia

Agora junte as duas coisas, e você terá uma das chaves mais poderosas do meu ofício. Quando encontro um português nascido do outro lado do mar que declara, num documento brasileiro, o nome dos pais, e a mãe, nascida em Portugal, aparece carregando o sobrenome do marido, alguma coisa não fecha. Aquela mulher, se fiel à sua terra, não teria esse nome. O que costuma haver por trás disso é um imigrante enquadrando a própria origem nos moldes brasileiros, dando à família a aparência de legitimidade que o assento português talvez não sustentasse. É o mesmo movimento de que falei quando tratei da arte de recomeçar e dos filhos que inventavam um pai ao chegar. O sobrenome da mãe alinhado ao do marido é, muitas vezes, a assinatura discreta dessa reinvenção.

É por isso que o historiador não pode ler o passado com os olhos do presente. Quem trabalha com genealogia precisa de uma visão da contemporaneidade de cada época, precisa entender a complexidade da sociedade que produziu aquele documento. Um nome não é só um nome. É um retrato do que era permitido, esperado e possível naquele tempo e naquele lugar. Ler um assento sem esse entendimento é como ler uma carta numa língua que não se domina. As palavras estão lá, mas o sentido escapa.

Quando o nome certo parece errado

Há também o engano ao contrário, e esse eu escuto o tempo todo dos clientes. Muitas vezes o estrangeiro não mentiu nada. Ele declara, com toda a exatidão, que a mãe se chamava Germana Ambrosina e o pai, Francesco Guirelli. Os nomes estão certos, cada um com o seu, fiéis à tradição da terra de origem. E é justamente aí que o cliente brasileiro se assusta. Habituado a ver a esposa carregando o sobrenome do marido, ele olha para aqueles dois nomes que não se encaixam e conclui, aflito, que os avós não eram casados, que ali há uma ilegitimidade, que a mãe não pertencia àquela família.

Não é culpa de quem pensa assim. É uma reação natural de quem lê o passado com os olhos do presente. A pessoa não está julgando por maldade, está apenas projetando sobre um documento antigo o costume que conhece, o brasileiro, e estranhando o que, na verdade, é o mais correto e o mais normal do mundo para um casal português, espanhol ou italiano. O nome da mãe diferente do nome do pai não denuncia coisa alguma. É simplesmente uma família latina fiel ao seu tempo e ao seu lugar.

E é exatamente aqui que se vê a diferença entre o olhar do leigo e o olhar do historiador. Onde um vê um problema, o outro vê a normalidade. Onde um lê vergonha, o outro lê tradição. O mesmo documento, a mesma linha, e duas leituras opostas, uma que inventa um escândalo que nunca houve, e outra que reconhece, com serenidade, um casal comum da sua época. Tranquilizar uma família, mostrando que aqueles nomes distintos não escondem falta nenhuma, é parte do meu trabalho tanto quanto encontrar um documento perdido.

O mesmo sinal, sentidos opostos

E há uma ressalva que é, ela mesma, parte do método. Esta regra vale para os povos latinos, portugueses, espanhóis e italianos, entre os quais a mulher guardava o próprio nome. Não vale para todos. Diante de uma família de origem alemã ou inglesa, a esposa carregando o sobrenome do marido é o esperado, porque é a tradição dela. O mesmo detalhe, o sobrenome da mãe, significa coisas opostas conforme a origem de quem o escreveu. No documento de um latino, é um alerta. No de um germânico, é o normal. Saber distinguir um do outro é o que separa a leitura apressada da leitura verdadeira.

No fim, tudo isto se resume a uma ideia simples. Um nome carrega a história do lugar de onde veio. A mulher que não mudava de nome não é um detalhe pitoresco. É uma testemunha. E, quando ela aparece num documento vestida com um nome que a sua terra jamais lhe daria, é sinal de que alguém, em algum momento, quis contar a história de outro jeito. O meu trabalho é escutar o que o nome verdadeiro ainda tem a dizer.

Das suas raízes ao seu futuro.

O nome da sua antepassada ainda tem o que dizer.

Se um nome no seu processo parece não fechar, podemos ler o que ele revela sobre a verdadeira origem da família.

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