Livro de registro de emigrantes espanhóis com a catedral de Santiago de Compostela ao fundo. Acervo Consultoria Mnésis.

Acervos · Imigração espanhola

Os espanhóis que viraram paraenses

As colônias, os sobrenomes e a origem que muita gente não sabe que tem.

por Thiago Bezerra Vianna · Consultoria Mnésis

Há um paraense que carrega uma origem espanhola e não desconfia dela. Conhece o sobrenome desde sempre (está na certidão do avô, na placa do sítio, na boca dos mais velhos) e nunca teve motivo para imaginar que aquele nome atravessou o Atlântico vindo da Galícia ou de Castela. Porque o nome não denuncia nada. Soa como qualquer outro. E é justamente por soar como qualquer outro que a origem se perdeu.

O nome que não entrega

Entre o fim do século XIX e as primeiras décadas do XX, milhares de espanhóis desembarcaram no Pará. Boa parte vinha da Galícia, terra onde os sobrenomes são primos diretos dos portugueses. Fernández, Rodríguez, López, Martínez, Gómez, Domínguez: troque o acento e o -z final por -s e você tem Fernandes, Rodrigues, Lopes, Martins, Gomes, Domingues. Nomes que qualquer brasileiro trata, sem pestanejar, como portugueses de raiz.

A troca, aliás, nem esperou pelas gerações seguintes. Ela começou no próprio balcão do registro. Nas Declarações de Passageiro de 1896 que hoje integram o nosso acervo, o mesmo sobrenome aparece grafado de três formas na mesma leva (González, Gonsalez, Gonzales) e Fernández convive com Fernandes na mesma página. O escrivão brasileiro ouvia o nome e o escrevia à moda da casa. Bastava isso para uma família começar a "virar portuguesa" no papel, décadas antes de qualquer neto nascer.

Nas listas daquele tempo repetem-se, às centenas, nomes como Fernandez, Garcia, Rodriguez, Gonzalez, Alvarez, Perez, Lopez, Martinez, Santos, Sanchez, Hernandez, Guerra, Alonso, Gomez, Dominguez, Arias, Redondo, Rivas, Benito, Prieto, Calvo, Navarro, Iglesias, Vicente, Lorenzo, Munoz, Varela, Losada, Carbajo, Sillero, Miguel. E, por trás de cada um, gente de carne e osso: Juan Calvo Vicente, Benito Lopez Lara, José Fernandez Valcarce, Pedro Gonzalez Vicente, Cristina Rodriguez Vicente, Juan Antonio Gomez Garcia, Santiago Chamorro Santos, cada qual chefe ou membro de uma família que fez raiz nesta terra e aqui deixou descendência.

De onde vieram

A maior parte embarcou em Vigo, na Galícia, e por muito tempo se repetiu que os imigrantes eram, na quase totalidade, galegos. A documentação conta uma história mais rica. Quando se cruzam as listas de passageiros de 1896, aparecem dois grandes blocos quase em pé de igualdade: a Galícia, com suas províncias de Ourense, Lugo e Pontevedra, e Castela e Leão, sobretudo Zamora e Salamanca, que naquele ano chegaram a responder, juntas, por cerca de metade dos que chegaram. Eram camponeses, na esmagadora maioria; gente jovem, em plena idade de trabalho, fugindo da falta de terra, do serviço militar e do aperto que apertava o campo espanhol.

As colônias que viraram cidades

O governo do Pará os queria na lavoura. Ao longo da estrada de ferro de Belém a Bragança, montou uma rede de núcleos coloniais para recebê-los, e é aí que essa presença deixou marca no mapa que usamos até hoje.

O núcleo de Jambu-Açu deu origem à cidade de Igarapé-Açu, criada por decreto em 1906. A colônia de Benjamin Constant firmou-se junto a Bragança. Marapanim, Benevides, Castanhal, Inhangapi: cada uma dessas cidades do nordeste paraense guarda, na própria fundação, a chegada de famílias espanholas.

Longe dali, no Baixo Amazonas, a colônia de Monte Alegre recebeu um contingente espanhol expressivo. E quando o núcleo perdeu força, muitas dessas famílias buscaram as cidades maiores da região, de modo que não é raro encontrar, em Santarém e Oriximiná, descendentes daqueles colonos.

E havia a capital. Belém foi chamada, com razão, de "Galícia paraense": abrigou milhares de espanhóis, que se adensaram nas ruas do Comércio, da Campina e da Cidade Velha, fundaram sociedades de auxílio mútuo e um centro galego, e deram à cidade um capítulo espanhol que o tempo quase apagou.

O que os documentos guardam

Nada disso se reconstrói de memória. Reconstrói-se documento a documento. Há anos indexamos as Declarações de Passageiro e outras fontes primárias da imigração no Pará, nome por nome, família por família, lugar de nascimento por lugar de nascimento. É desse trabalho paciente que nasce a possibilidade de tomar um sobrenome, seguir o seu rastro até o porto de saída na Espanha e reencontrar, do outro lado do oceano, a aldeia de onde a pessoa partiu.

A porta que quase ninguém viu

Por muito tempo, quem descendia dessas famílias teve diante de si uma porta que talvez lhe coubesse: a de reivindicar, pela origem, uma nacionalidade europeia. Por uma janela de tempo, ela esteve aberta. Hoje está fechada. E o que mais impressiona não é que muitos não a tenham atravessado: é que a maioria sequer soube que ela existia, ou que talvez lhe dissesse respeito. Não sabiam que eram, em parte, espanhóis. O nome não contava.

Talvez o seu conte. Se no seu sobrenome há um Fernandes, um Rodrigues, um Gomes que ninguém nunca soube explicar de onde veio, pode ser apenas isso, ou pode ser um fio que começa numa aldeia da Galícia e ainda não foi puxado. Vale investigar.

Das suas raízes ao seu futuro.

A história da sua família deixou documentos.

Se você reconheceu um sobrenome, uma cidade ou uma trajetória, podemos verificar o que os arquivos guardam sobre os seus antepassados.

Solicitar uma pesquisa
← Ver todos os artigos