Porto de Vigo, Galiza, fim do século XIX.

O corredor Vigo-Brasil

Imigração e Acervos

por Thiago Bezerra Vianna · Consultoria Mnésis

No final do século XIX, milhares de galegos deixaram os portos de Vigo e da Corunha rumo ao Brasil. Muitos dos seus descendentes têm hoje, guardado num papel de família ou numa lista de passageiros, apenas o nome de um navio, sem saber o que esse nome significa. Este artigo é o mapa dessas rotas e desses vapores, para que o nome do navio volte a falar. Ele é o complemento documental de um texto anterior, “O que uma lista de passageiros não diz”, onde tratámos de como se interpreta a fonte; aqui reunimos as companhias, as rotas e os navios concretos que faziam a ligação entre a Galiza e o Brasil.

Um corredor de saída, e o seu tamanho

A emigração galega para a América não se distribuía por qualquer porto. Concentrava-se, sobretudo, em Vigo e na Corunha, que funcionavam como os grandes pontos de vazão do noroeste peninsular. A dimensão desse fluxo é considerável: a documentação baseada nos relatórios brasileiros aponta 8.227 saídas de Vigo com destino ao Brasil somente entre 1896 e 1899, distribuídas em 2.788 no ano de 1896, 2.476 em 1897, 1.800 em 1898 e 1.163 em 1899.¹ São quatro anos apenas, e num só porto.

Há um ponto que convém fixar de início, porque contraria a intuição comum. Os grandes navios que faziam esse transporte de massa raramente eram espanhóis ou portugueses. As maiores companhias da rota sul-americana eram inglesas e alemãs. Um levantamento do mercado sul-americano do período contabiliza, na linha, sete companhias britânicas, três francesas, três italianas, duas alemãs e apenas uma espanhola.² O casco que levava o galego ao Brasil era, na esmagadora maioria dos casos, de bandeira estrangeira. Por isso, para reconstruir a viagem de um antepassado, é às companhias inglesas e alemãs que se deve olhar primeiro.

As companhias e os seus vapores

A primeira companhia a considerar é a Royal Mail Steam Packet Company, conhecida no Brasil como Mala Real Inglesa. Vigo fazia parte estrutural do seu corredor: já em 1880 havia programação oficial para os vapores-correio procedentes de Southampton fazerem escala em Vigo em datas regulares. A rota típica ligava Southampton, Corunha ou Vigo, Lisboa, Pernambuco, Rio de Janeiro e Santos, prolongando-se até Montevidéu e Buenos Aires. Os seus vapores mais presentes na carreira do início da década de 1890 foram o Clyde, o Tamar, o Magdalena, o Trent e o Thames.³

A segunda, igualmente essencial, é a Pacific Steam Navigation Company, a Compañía del Pacífico. Operava uma grande linha que ligava Liverpool a Bordéus, Corunha, Carril e Vigo, seguindo por Lisboa, Pernambuco, Bahia, Rio de Janeiro, Montevidéu, Buenos Aires e os portos do Pacífico. Um anúncio espanhol de época informava partidas da companhia a partir de Vigo duas vezes por mês. Entre os seus vapores contam-se o Patagonia, o Aconcagua, o Sorata, o Potosí, o Galicia, o Iberia, o Liguria e o Magellan.⁴

A terceira é a alemã Norddeutscher Lloyd, de Bremen, que operava no período tanto uma linha para o Brasil quanto outra para o Rio da Prata. Um folheto de 1889 registava, mensalmente, o percurso Bremen, Antuérpia, Lisboa, Bahia, Rio de Janeiro e Santos; e, quinzenalmente, o percurso Bremen, Corunha, Vigo, Montevidéu e Buenos Aires. Na prática, os itinerários cruzavam-se e variavam. Entre os seus vapores de emigração rastreiam-se o Berlin, o Graf Bismarck, o Ohio, o Frankfurt, o Baltimore, o Weser, o Leipzig e o Kronprinz Friedrich Wilhelm.⁵

Capacidade de projeto e lotação real

Aqui é preciso uma distinção que muda tudo para quem pesquisa, e que separa o dado sério do dado ingénuo. Uma coisa é a capacidade de projeto de um navio, a que consta da ficha técnica; outra, bem diferente, é a lotação efetivamente transportada numa viagem concreta. Navios de grande tonelagem nem sempre levavam mais emigrantes, e vapores menores podiam ser adaptados com enorme capacidade de terceira classe, o chamado steerage ou Zwischendeck.

Os vapores da Royal Mail, como o Clyde, tinham capacidade da ordem dos 548 passageiros, distribuídos por primeira, segunda e terceira classes; os posteriores Nile e Danube, de cerca de 5.800 a 5.900 toneladas, aproximavam-se dos 600.⁶ Os grandes vapores da Pacific Steam situavam-se, tipicamente, entre 500 e 666 passageiros, com forte peso da terceira classe: o Galicia, por exemplo, comportava cerca de 666, dos quais 500 em terceira.⁷ Já os vapores da Norddeutscher Lloyd revelam a diferença entre ficha e realidade de forma exemplar. O Berlin fora projetado para cerca de 684 lugares, mas a base de partidas de Bremen regista-o a sair com 767, 803, 782 e até 1.002 passageiros em viagens distintas.⁸ Os números da ficha técnica, portanto, devem ser tratados como configuração, não como limite físico.

O caso mais expressivo é o do ano de 1890, um pico de transporte massivo de emigrantes ao Brasil pela Norddeutscher Lloyd. A base de partidas de Bremen regista, viagem a viagem, as seguintes lotações com destino ao Brasil naquele ano.⁹ Em 25 de fevereiro, o Kronprinz Friedrich Wilhelm, com 706 passageiros. Em 25 de março, o Ohio, com 686. Em 25 de abril, o Baltimore, com 545. Em 25 de maio, o Graf Bismarck, com 836. Em 25 de junho, o Ohio, com 813. Em 25 de julho, o Baltimore, com 1.291. Em 25 de agosto, o Graf Bismarck, com 807. Em 28 de agosto, o Main, com 1.296. Em 24 de setembro, o Frankfurt, com 729. Em 25 de setembro, o Ohio, com 1.030. Em 26 de setembro, o Weser, com 1.618. E, em 10 de outubro, o Stuttgart, com 2.600 passageiros numa única partida.

Esse número do Stuttgart não é isolado. Documentação parlamentar norte-americana posterior menciona vapores da mesma companhia com mais de dois mil emigrantes de terceira classe numa única chegada, entre eles o próprio Stuttgart com 2.223, o Oldenburg com 2.493 e o Weimar com 2.428.¹⁰ Lotações superiores a dois mil emigrantes eram, portanto, uma realidade documentada no início da década de 1890.

Dois exemplos que a fonte guarda

Dois casos concretos mostram como esses números se traduzem em documento. O primeiro é o do Berlin. Uma carta escrita em São Paulo em dezembro de 1888 relata uma emigração ocorrida a 3 de novembro daquele ano, “desde Vigo hasta el Imperio del Brasil”: cerca de 360 famílias espanholas embarcaram no Berlin em Vigo; depois, em Lisboa, embarcaram aproximadamente 700 portugueses, e o autor calcula cerca de 1.400 emigrantes a bordo, numa travessia de cerca de 21 dias.¹¹ É prova direta do embarque massivo de espanhóis em Vigo com destino ao Brasil.

O segundo é o do Córdova, num registo de 28 de setembro de 1892, com o itinerário Bordéus, Vigo, Açores, Leixões, Lisboa e Rio de Janeiro, transportando 394 imigrantes. Este caso é particularmente valioso porque a respetiva lista de passageiros regista, além do nome, o porto de embarque, o passaporte, a classe, o sexo, a idade, o estado civil, a religião, a profissão e a nacionalidade.¹² É o exemplo perfeito de uma lista rica, em contraste com as listas pobres em que só constam o nome e a nacionalidade, e demonstra, na prática, o que discutimos no artigo sobre a leitura das listas.

Onde estão estas listas

Para a pesquisa concreta, três acervos são especialmente valiosos. No Brasil, o Arquivo Nacional conserva as relações de passageiros do porto do Rio de Janeiro entre 1875 e 1900, com cerca de 1,3 milhão de registos; e o Arquivo Público do Estado de São Paulo guarda as listas de passageiros desembarcados em Santos desde dezembro de 1888. No Rio da Prata, o Centro de Estudios Migratorios Latinoamericanos, o CEMLA, de Buenos Aires, conserva as listas de chegada ao porto argentino; e, como muitos desses vapores escalavam o Brasil antes de descer ao Prata, e como era frequente a reemigração de trabalhadores do Brasil para a Argentina, essas listas platinas preservam, com utilidade, o porto de embarque europeu do antepassado.¹³

Uma advertência de método

Resta uma advertência que não pode faltar, e que é a fronteira entre a pesquisa séria e a conclusão apressada. Nem todo vapor de uma companhia tocava Vigo em todas as viagens. Algumas partidas usavam a Corunha, outras Vigo, outras omitiam determinado porto conforme a viagem. Saber que um navio pertencia a uma linha que servia Vigo não prova que uma pessoa concreta embarcou ali. Para o afirmar, é indispensável verificar a viagem específica, na lista específica. O nome do navio abre a investigação; não a encerra.

Fecho

O corredor Vigo-Brasil não foi uma soma de partidas avulsas. Foi um sistema, com as suas companhias, as suas rotas fixas, os seus vapores de nomes repetidos e as suas lotações que, nos anos de pico, ultrapassavam os dois mil emigrantes por viagem. Reconstruir esse sistema é o que permite, hoje, pegar no nome de um navio guardado por uma família e devolver-lhe o seu significado: a companhia que o operava, a rota que fazia, o porto galego onde o antepassado subiu a bordo.

Fontes

  1. Relatórios brasileiros sobre saídas de emigrantes do porto de Vigo, 1896-1899.
  2. Sánchez Alonso, Blanca, “Algunas reflexiones sobre las políticas de inmigración en América Latina en la época de las migraciones de masas”, Estudios Migratorios Latinoamericanos, ano 18, n.º 53, 2004.
  3. Royal Mail Steam Packet Company: rotas, escalas e vapores da carreira Europa-Brasil-Prata (compilações de história marítima, incluindo Novo Milênio).
  4. Pacific Steam Navigation Company: rotas e vapores da linha europeia-sul-americana (compilações de história marítima, incluindo ecsodus.com).
  5. Norddeutscher Lloyd: itinerários das linhas do Brasil e do Rio da Prata, folheto de 1889, e frota de vapores de emigração (compilações de história marítima).
  6. Royal Mail: capacidades e tonelagens do Clyde, Nile e Danube (compilações de história marítima, incluindo Novo Milênio).
  7. Pacific Steam Navigation Company: capacidades e tonelagens da frota, incluindo o Galicia (compilações de história marítima).
  8. Base de dados de partidas de emigrantes de Bremen (public-juling.de): registos de viagens do vapor Berlin com lotações efetivas.
  9. Base de dados de partidas de emigrantes de Bremen (public-juling.de): registos de viagens da Norddeutscher Lloyd com destino ao Brasil, 1890.
  10. Congressional Record dos Estados Unidos, 1893: lotações de vapores de emigrantes de terceira classe (Stuttgart, Oldenburg, Weimar).
  11. Carta escrita em São Paulo, dezembro de 1888, relatando a viagem do vapor Berlin de Vigo ao Brasil.
  12. Lista de passageiros do vapor Córdova, 28 de setembro de 1892.
  13. Arquivo Nacional (Rio de Janeiro), relações de passageiros do porto do Rio de Janeiro, 1875-1900; Arquivo Público do Estado de São Paulo, listas de Santos desde dezembro de 1888; Centro de Estudios Migratorios Latinoamericanos (CEMLA), Buenos Aires. Sobre a reemigração Brasil-Prata, ver ainda Moya, José C., “Migração e formação histórica da América Latina em perspectiva global”, Sociologias, ano 20, n.º 49, 2018.

O nome de um navio volta a falar.

É esse cruzamento entre a lista, a rota e o navio que fazemos em cada caso de origem galega. Se a sua família guarda o nome de um vapor, ou apenas a lembrança de um porto de partida, esse fragmento pode ser o princípio de uma reconstrução documental precisa.

Solicitar uma pesquisa
← Ver todos os artigos