Minho → Amazônia · Nacionalidade portuguesa

Os galos do outro lado do rio

Maria de Nazaré Alves com o marido e os filhos, em fotografia de família reproduzida com autorização.
Maria de Nazaré Alves com o marido e os filhos, em fotografia de família reproduzida com autorização.

Quando fui conversar com a família, quem me recebeu foi uma senhora de quase noventa anos, dona de uma memória viva e de uma curiosidade que a acompanhava havia décadas. A história que ela guardava era a mesma que lhe tinham contado em menina. Os avós eram portugueses. O avô, um comerciante que atravessou o Atlântico, casou, teve vários filhos e morreu ainda cedo, deixando a esposa viúva com a família para criar. Da terra de origem, porém, ninguém sabia dizer o nome. Portugal era uma resposta grande demais para caber num mapa.

A mãe dela, Maria de Nazaré Alves, era a filha mais nova, e a única nascida no Brasil. Casou muito cedo, aos dezessete anos, com um engenheiro japonês que viera ao Brasil não como colono, mas a serviço do governo do Japão, encarregado de estudar as terras antes da implantação das colônias japonesas na Amazônia. Foi um dos primeiros casamentos entre um japonês e uma brasileira na região, num tempo em que os japoneses casavam quase sempre entre si. Mas essa é uma história para outro momento, e prometo contá-la, porque merece um artigo só dela. O que importa aqui é que foi esse casamento que prendeu Maria ao Brasil. Quando o pai morreu, os irmãos mais velhos voltaram a Portugal para tocar os negócios da família, e as irmãs, com o tempo, foram levadas para viver com os avós do outro lado do oceano. Só a caçula ficou. A mãe, viúva, envelheceu aqui.

Eu gosto de começar cada caso por uma conversa longa, sem pressa, porque o documento que vamos procurar está quase sempre guardado, sem que ninguém perceba, na memória de um antepassado. E foi numa dessas conversas que a senhora me disse a frase que decidiu a investigação inteira. A avó, contava ela, dizia que moravam tão perto da Espanha que se ouviam os galos cantarem do outro lado do rio.

Uma frase que vale um mapa

Uma frase assim pode ser tomada como caso de saudade, uma daquelas imagens que as famílias repetem sem saber de onde vieram. Mas eu não a tratei como enfeite. Tratei como prova. Havia ali coincidências específicas demais para serem invenção. Um rio. A Espanha do outro lado. Uma fronteira tão estreita que o som de um quintal atravessava a água. Ora, o que separa Portugal da Espanha por um rio, no norte, é o Minho. Aquela frase, repetida por gerações sem que ninguém lhe percebesse o valor, delimitava sozinha o território da pesquisa. Eu não procurava mais em Portugal inteiro. Procurava numa faixa estreita da fronteira, onde as vilas se debruçam sobre o rio e a Galiza começa na outra margem.

Quando as fontes de sempre não existem

O problema é que eu tinha o lugar aproximado e não tinha por onde entrar. Na certidão de casamento de Maria não constava a naturalidade dos pais, coisa comum nos assentos daquela época. Os irmãos mais velhos, que poderiam ter deixado no Brasil uma certidão ou uma carteira de estrangeiro com o local de nascimento, não serviam, porque tinham voltado a Portugal e não deixaram aqui esse tipo de rastro. Eu estava diante de uma família que se dividira ao meio. Metade regressou e levou consigo os documentos que eu precisava ler. A metade que ficou, uma filha e uma viúva, não carregava no papel a origem que carregava na lembrança.

O rasgo temporal e o comerciante

Restava-me estreitar o tempo. Se Maria era a única filha nascida no Brasil, então o pai já estava estabelecido aqui quando ela nasceu, e eu sabia o ano em que ele morrera. Tinha, portanto, os dois extremos de uma faixa. A vida brasileira daquele português cabia entre o nascimento da caçula e a sua própria morte, e era dentro desse intervalo que eu precisava procurar, não num tempo aberto e sem fim.

Foi então que recorri a um tipo de fonte que poucos têm em mãos. Havia anos eu vinha digitalizando os livros e as fichas de inscrição consular portuguesa no Pará, um acervo que guarda a vida da comunidade portuguesa da região como nenhum outro. Este era um caso antigo, e eu ainda não tinha indexado aquele material, de modo que não bastava consultar um índice. Era preciso folhear, ano a ano. Mas eu tinha uma vantagem, porque conhecia o comportamento do meu personagem. Quem estuda as inscrições consulares aprende que a probabilidade de um comerciante se inscrever no consulado é muito maior do que a de um lavrador. O comerciante precisa manter os vínculos com a comunidade e com a sociedade portuguesa, porque deles dependem os seus negócios, e o consulado era, naquele tempo, um ponto de encontro dessa gente. Um agricultor isolado no interior podia viver e morrer sem nunca se apresentar a um cônsul. Um negociante, não. Comecei pelo ano da morte e fui olhando para trás, dentro daquela faixa, à procura do homem que a lógica dizia que eu haveria de encontrar.

E encontrei. A ficha de inscrição consular do avô estava lá, e nela, enfim, a origem da família, uma vila às margens do rio Minho, na fronteira com a Espanha. A avó tinha razão. Do quintal daquela vila, os galos da outra margem eram mesmo galos espanhóis. A frase que parecia poesia era topografia.

Casos assim me ensinaram a nunca desprezar aquilo que a família repete. A memória oral erra em datas, embaralha nomes, inventa parentescos. Mas às vezes ela guarda, num detalhe que ninguém sabe explicar, a coordenada exata de onde tudo começou. Não afirmo que toda lembrança seja verdade. Digo apenas que vale escutá-la com atenção, porque uma frase sobre galos que cantam do outro lado de um rio pode valer, para quem sabe lê-la, mais do que um mapa.

A sua família também tem uma história assim.

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