Há famílias que chegam até nós sem saber quase nada sobre a própria origem. Os Roffé chegaram com o contrário: uma história inteira, guardada com cuidado por gerações. O que lhes faltava não era memória. Era prova.
A história que a família contava
A família Roffé tem origem em Arzila, pequena cidade na costa atlântica do noroeste do Marrocos, hoje parte da prefeitura de Tânger-Arzila. Foi praça portuguesa entre 1471 e 1550 e abrigou, séculos depois, uma numerosa comunidade judaica. Ali viveu o patriarca, Levi Roif, comerciante de destaque e figura ativa da comunidade sefardita local. Casou-se duas vezes, primeiro com Honória e depois com Cota, teve seis filhos e nunca deixou o Marrocos: morreu em Arzila em 1926 e foi sepultado no cemitério judaico da cidade.
Os três filhos homens, Abraham, Alfredo e Jaime, atravessaram o Atlântico, e com eles vieram também vários netos de Levi, filhos das suas filhas, que já traziam outros sobrenomes. A família se espalhou pelo Pará, pelo Amazonas e pelo Rio de Janeiro, seguindo uma corrente que vinha de longe: desde as primeiras décadas do século XIX, judeus do norte do Marrocos buscavam a Amazônia, e Belém tinha uma comunidade judaica organizada desde a década de 1820, como já contamos na história dos Benassuly.
No Pará, os Roffé prosperaram. A firma Roffé & Cia., na rua Santo Antônio, em Belém, trabalhava com importação e exportação e mantinha uma rede de negócios no Baixo Amazonas e no Amapá. Com a borracha, a família chegou a figurar entre as mais ricas da região. Na bibliografia e na historiografia, os Roffé são lembrados como uma das famílias judias tradicionais do Pará, exemplo dos judeus marroquinos que fizeram a vida na Amazônia.
Memória não é prova
Tudo isso a família sabia. O problema é que, para pedir à Comunidade Israelita de Lisboa a certificação da ancestralidade sefardita, não bastava saber. Era preciso demonstrar, com fontes, cada elo entre os descendentes de hoje e o patriarca de Arzila, e a ligação dessa linhagem com a tradição judaica sefardita.
Histórias transmitidas de geração em geração tendem a se cristalizar. Algumas se confirmam inteiras, outras apenas em parte, e algumas não resistem aos documentos. Por isso, no caso dos Roffé, a memória familiar foi o ponto de partida, nunca o ponto de chegada. Tudo o que a família lembrava foi anotado e tratado como hipótese, e cada hipótese foi confrontada com as fontes.
A memória familiar foi o ponto de partida, nunca o ponto de chegada.
Quatro tipos de fonte
A reconstrução se apoiou em quatro frentes que se completavam.
As certidões de nascimento, de casamento e de óbito permitiram ligar os descendentes nascidos no Pará às gerações que tinham atravessado o Atlântico. Com elas reconstruímos as linhagens geração por geração, estabelecendo quem era filho de quem e montando as árvores genealógicas que levavam cada ramo até os filhos de Levi.
As fotografias das sepulturas da família no Marrocos, que tivemos a sorte de localizar, fizeram algo que as certidões não podiam fazer: levaram a prova para o outro lado do Atlântico, até a geração do patriarca. Lápides judaicas costumam registrar, além do nome, a filiação e a data segundo o calendário hebraico, e por isso uma sepultura pode oferecer, ao mesmo tempo, sinais de identidade judaica e elementos de parentesco. No Pará, as fotografias de sepulturas nos cemitérios judaicos e as imagens de sinagogas ajudaram a situar os Roffé na vida judaica local.
Os dicionários de sobrenomes judaicos sefarditas e as obras de referência sobre os judeus marroquinos permitiram situar Roif e Roffé no universo onomástico sefardita e confirmar o lugar da família entre as famílias judias tradicionais da Amazônia.
E a memória dos Roffé ficou no seu devido lugar: guiou a pesquisa, indicando onde procurar, e cada ponto dela foi submetido às fontes, sem nunca servir como prova isolada.
Cruzar para provar
Nenhuma dessas fontes, sozinha, resolveria o caso. Uma certidão indica um nome e uma filiação; uma lápide pode confirmar a identidade judaica e fornecer elementos de parentesco; uma obra de referência situa a família na comunidade. É o cruzamento entre elas que transforma indícios em prova.
Um dos nós era o próprio sobrenome. O patriarca de Arzila era Roif; a família que prosperou no Brasil é Roffé. O nome está ligado ao hebraico rofé, que quer dizer médico, e variações assim são frequentes entre os judeus marroquinos, cujos nomes passaram pelo hebraico, pelo árabe, pelo espanhol e pelo português antes de chegar aos cartórios brasileiros. Demonstrar que Roif e Roffé eram a mesma família fazia parte da prova, e só o conjunto das fontes permitia fazê-lo.
Do relatório à certificação
Todo esse material foi reunido num relatório genealógico: as árvores, as linhagens reconstruídas, os documentos de cada elo, as imagens das sepulturas e as referências bibliográficas que sustentavam a origem sefardita da família. O relatório foi apresentado à Comunidade Israelita de Lisboa, e o parecer foi favorável. Os Roffé tiveram a sua ancestralidade judaica sefardita reconhecida, e vários descendentes deram entrada no pedido de nacionalidade portuguesa. As regras desse caminho mudaram desde então, mas o trabalho feito para a família continua de pé.
O que a pesquisa devolveu
Para os Roffé, o resultado foi ver a história que contavam havia gerações sustentada por documentos. Para nós, o caso teve outro valor: exigiu um mergulho profundo no universo sefardita marroquino da Amazônia, nas suas comunidades, nos seus nomes e nos seus registros, e esse conhecimento hoje sustenta outros trabalhos da casa.
Na Consultoria Mnésis, é esse o trabalho que fazemos: dar à memória de cada família o fundamento dos documentos.
