Norte de Portugal → Rio de Janeiro · Nacionalidade portuguesa

Com chupeta ou bengala, o importante é imigrar

Um bebê de quatro meses, uma carta de chamada e uma família que atravessou o Atlântico em etapas

Ao longo dos séculos, os portugueses criaram laços profundos com o mar. Hoje, quando adiamos uma viagem porque os filhos ainda são pequenos ou porque os pais já estão velhos demais, é difícil imaginar que essas mesmas condições nunca foram impedimento para quem decidia partir. Houve quem cruzasse o oceano ainda de chupeta. E houve quem o cruzasse já de bengala.

Um dos casos que investigamos mostra bem isso.

O pouco que a família sabia

Quando a família nos procurou, trazia quase nada. Sabia que o antepassado, Manuel Costa, tinha nascido no norte de Portugal no início do século XX e que, em algum momento, viera para o Brasil. Só isso. Não havia data de chegada, não havia porto, não havia certeza de quando nem com quem ele tinha feito a travessia. Na memória familiar, a imigração era dele, como se Manuel tivesse deixado Portugal por conta própria.

É uma lacuna comum. A história da travessia costuma ser a primeira a se perder, porque quem a viveu raramente a contava, e quem a ouviu nem sempre a guardou.

A pista que mudou a pergunta

A investigação tomou outro rumo quando descobrimos que Manuel tinha irmãos nascidos no Brasil. Esse detalhe, aparentemente simples, desmontava a versão que a família conhecia. Se os irmãos eram brasileiros e Manuel era português, os pais estavam no Brasil. E se Manuel nasceu em Portugal, alguém o trouxe. A pergunta deixou de ser quando Manuel imigrou e passou a ser como aquela família inteira tinha chegado até aqui.

Primeiro o homem, depois a família

O primeiro documento a aparecer foi o passaporte do pai, Alberto da Costa, com destino ao Rio de Janeiro. Alberto partiu pouco antes de o filho nascer, deixando em Portugal a mulher, Gracinda Cunha.

A partida de Alberto não foi um gesto isolado. O norte de Portugal atravessava, no início do século XX, anos muito duros: terras cada vez mais divididas entre herdeiros, trabalho escasso, pouca perspectiva para os mais jovens. Nos anos que antecederam a Primeira Guerra Mundial, a saída de portugueses para o Brasil alcançou volumes que o país ainda não tinha conhecido.

E essa saída tinha um rosto predominantemente masculino. A imigração portuguesa para o Brasil não se fez, em regra, com famílias inteiras embarcando juntas. Partiam primeiro os homens. As mulheres ficavam, cuidando da casa, da terra e dos filhos, à espera de notícias, de dinheiro ou de um chamado. No norte de Portugal, a situação era tão comum que ganhou nome: eram as viúvas de vivos.

A carta que abria o caminho

Gracinda não esperou muito. Poucos meses depois do nascimento do filho, recebeu de Alberto uma carta de chamada.

A carta de chamada era o documento pelo qual o imigrante já estabelecido no Brasil chamava um familiar para junto de si. Na prática, dizia: pode vir. Para uma mulher casada, porém, ela tinha um peso a mais. No regime jurídico da época, a mulher casada dependia da autorização do marido para obter passaporte e deixar o país. Com o marido do outro lado do Atlântico, era a carta de chamada que cumpria esse papel. Uma mulher casada emigrando sem essa autorização era algo raríssimo. Carregando uma criança de colo, ainda mais.

Localizamos o passaporte de Gracinda. Nele seguia também o pequeno Manuel e, anexada ao processo, estava a carta de chamada enviada por Alberto. Foi com ela em mãos que Gracinda se apresentou ao governo civil e obteve a autorização para partir.

Um passaporte para cada viagem

O passaporte daquele tempo pouco tinha a ver com o de hoje. Não era um documento de longa validade, tirado com antecedência e guardado na gaveta para quando fosse preciso. Era emitido para uma única viagem, com alguns meses e, muitas vezes, apenas alguns dias de antecedência em relação ao embarque, quando ficava pronto. Quem quisesse viajar de novo precisava tirar outro. Por isso, a data de um passaporte é uma pista preciosa: ela aponta para a janela em que a partida aconteceu.

Foi esse o caminho que nos levou ao navio. A partir do passaporte, identificamos a embarcação em que Gracinda e Manuel deixaram Portugal e, depois, a chegada dos dois ao Rio de Janeiro. Com o filho de pouco mais de quatro meses nos braços, Gracinda passou 23 dias no mar. Como lembrava Fernando Pessoa, citando os navegadores antigos, navegar é preciso.

A data que não batia

A reconstrução da viagem trouxe ainda outra resposta. A data de nascimento que aparecia nos documentos de Manuel no Brasil não coincidia com a verdadeira. Era uma diferença pequena, mas em pesquisa documental pequenas divergências não são ignoradas, são investigadas. Em quem chegou ao Brasil ainda criança, é comum que a data tenha sido informada de memória, anos depois, por alguém da família. Cruzando o passaporte, o registro da chegada e os demais documentos, foi possível fixar a data exata do nascimento de Manuel.

O que os documentos devolveram à família

No Brasil, o casal teve outros filhos. Manuel cresceu, casou e formou a própria família. Uma de suas netas conviveu com ele por apenas quatro anos e meio, mas guarda o que todos repetem até hoje: Manuel era um homem muito bom e calmo. Poucos ali sabiam que aquele homem sereno tinha começado a vida atravessando o oceano.

Retrato de Manuel Costa, do acervo da família.
Manuel Costa. Acervo da família, imagem restaurada digitalmente.

A história que tinha chegado aos descendentes era a de um imigrante que viera sozinho. A que os documentos contaram é outra: a de um pai que foi abrir caminho, de uma mãe que decidiu não ficar esperando e de um bebê que cruzou o Atlântico antes de aprender a andar.

Há ainda um detalhe que só os papéis revelam. Casada com Alberto da Costa, Gracinda continuava sendo Gracinda Cunha. Na tradição portuguesa, a grande maioria das mulheres não adotava o sobrenome do marido ao casar, e quem procura uma antepassada pelo sobrenome do esposo pode passar anos sem encontrá-la.

Com chupeta ou com bengala

O caso de Manuel é o da chupeta. Mas a imigração portuguesa também conheceu o outro extremo. A maioria dos que partiam era jovem, mas não todos. Muitos imigrantes, depois de estabelecidos, mandavam buscar a mãe ou o pai já idosos, para que vivessem seus últimos anos perto dos filhos e em condições melhores do que teriam deixado para trás. Também eles cruzaram o Atlântico, chamados por quem já estava do lado de cá.

Hoje, são os descendentes dessas famílias que fazem o caminho inverso, em busca da terra de onde tudo começou. E esse caminho, quase sempre, começa pelos mesmos papéis que um dia permitiram a partida.

Na Consultoria Mnésis, é essa travessia que reconstruímos, documento por documento, até que cada família conheça a viagem que a trouxe até aqui.

O que as netas de Manuel nos disseram

“Fiquei muito emocionada em descobrir uma parte da história da minha família. Obrigada.”Sandra Regina Costa
“Obrigada por proporcionar à minha família essa satisfação.”Lucia Costa

A sua família também tem uma história assim.

Toda pesquisa começa com aquilo que a família ainda sabe. Conte-nos, e verifique se o seu antepassado está em nosso acervo de mais de 800 mil registros.

Solicitar pré-análise Consultar o acervo
← Ver todas as histórias do Arquivo Mnésis