Nossas memórias afetivas nos remetem a lugares por onde passamos — e, em Belém, quantas pessoas não tiveram a Casa Albano, na esquina da 16 de Novembro, como a mercearia de sua infância?
Fundada em 1899 pelo imigrante português Albano Augusto Martins, essa casa comercial fez parte do cotidiano de muitos e resistiu por mais de cem anos à expansão da cidade. Mas poucos conhecem a história de superação do seu proprietário.
O jovem lusitano era filho natural de dona Maria José Martins e, ao completar 11 anos, foi mandado a Belém aos cuidados do padrinho, Albano Fonseca Parente. Passou a trabalhar no cais do Imperador (depois cais do Reduto), na casa de pasto dos Fonseca Parente, em contato com as idas e vindas das embarcações repletas de produtos das ilhas. A vida no cais não era fácil, e Belém era um celeiro de epidemias: dois anos após sua chegada, viu no seio familiar o destino de muitos compatriotas — a morte por febre amarela levou, aos 11 anos, Manuel Fonseca Parente, sobrinho de seu padrinho.
O menino virou rapaz e acompanhou as transformações da Belém da Belle Époque. Comunicativo e carismático, aos 27 anos fundou a Casa Albano com os parcos recursos que conseguiu guardar — e, com fama de trabalhador e bom negociante, agregou dois sócios investidores: no mesmo ano, as portas estavam abertas.
Foi na capital do Pará que casou e teve filhos. Se a vida não lhe permitiu uma educação erudita, não poupou esforços para concedê-la aos filhos. Hoje, são seus descendentes que buscam suas origens e pleiteiam a cidadania portuguesa.
Do cais do Reduto à esquina mais querida de Belém: a história de superação por trás de uma mercearia centenária.
