Três das grandes histórias portuguesas nos Estados Unidos desenrolaram-se de maneiras muito diferentes, e é um erro tratá-las como uma só. Em New Bedford, no Massachusetts, o português chegou pela baleia e ficou nas fábricas de tecido. No vale de Sacramento, foi para o ouro, e do ouro passou para a terra, o gado e a política. Em San Diego, no extremo sul da Califórnia, a história é outra: ali o português chegou pelo mar e permaneceu no mar, e acabou por criar, do nada, uma indústria que alimentou o mundo.
Quem migrou, e por quê
A presença portuguesa naquela baía é anterior à própria Califórnia. A 28 de setembro de 1542, o navegador João Rodrigues Cabrilho, português ao serviço da Coroa espanhola, foi o primeiro europeu a entrar na baía de San Diego, contornando a península que hoje se chama Point Loma. Ali vivia, havia milhares de anos, o povo Kumeyaay. Cabrilho passou; a colónia portuguesa viria quase quatro séculos depois, e por outra via.
Essa via foi a baleia. Ao longo do século XIX, os capitães baleeiros americanos partiam da Nova Inglaterra e faziam escala nos Açores e em Cabo Verde para completar tripulação, recrutavam ali porque os encontravam disponíveis, experientes e baratos. A caça começara, aliás, no canal entre as ilhas de São Jorge e do Pico. Foi assim que os primeiros açorianos entraram em número significativo nos Estados Unidos: não como colonos, mas como marinheiros. San Diego teve papel na indústria baleeira a partir de 1857, com auge por volta de 1871.
Quando a baleia declinou, ficou o mar. E ficaram eles.
Os registos mostram uma população portuguesa fixada em Point Loma desde 1885, e crescendo de forma contínua até meados do século XX. Vinham sobretudo dos Açores: Pico, São Jorge, São Miguel, Terceira, e da Madeira; havia ainda continentais e cabo-verdianos. Há um caso documentado que ilustra bem a lógica migratória: numa pequena aldeia madeirense, Paul do Mar, correu a notícia de que San Diego era a capital da lagosta da costa do Pacífico e de que já existia ali um núcleo português. Alguns pescadores vieram; uma vez instalados, mandaram vir as famílias, juntaram recursos e compraram quotas em barcos. É o padrão clássico da migração em cadeia, um vai, os outros seguem, e é ele que explica por que tantas famílias americanas de hoje descendem de uma mesma freguesia insular.
Onde se concentraram
A concentração é notavelmente precisa, e isso é decisivo para quem hoje procura os seus antepassados. Os portugueses agruparam-se no extremo sul da península de Point Loma, nos bairros de La Playa, Roseville e, mais tarde, Fleetridge, os primeiros núcleos cresceram junto ao fundo das ruas Kellogg e McCall. Cerca de noventa por cento dos primeiros imigrantes das ilhas portuguesas viviam da indústria do atum. A densidade era tal que o bairro inteiro ganhou nome próprio: Tunaville, a vila do atum. Nos anos 1930, os limites de Point Loma entre as ruas Lowell e Talbot, subindo a península até Willow, já eram conhecidos assim.
Quem procura documentos de família deve reter estes topónimos: Point Loma, La Playa, Roseville, Tunaville, Shelter Island, Avenida de Portugal. É neles que a comunidade viveu, casou, batizou os filhos e enterrou os seus mortos.
Como os pescadores construíram uma indústria
A integração portuguesa em San Diego não se deu por assimilação passiva, mas pelo inverso, pela criação de um setor económico inteiro. A pesca começou rudimentar, com uma linha, um anzol e isco vivo, em pequenos botes. Evoluiu para a técnica que tornaria aquela frota célebre: a pesca à vara de bambu, com dois, três ou quatro pescadores atando as varas em conjunto para içar atuns de centenas de quilos.
O nome central é Manuel Oliver Medina, natural da ilha do Pico. Foi ele o responsável por iniciar a frota atuneira de alto-mar dos Estados Unidos, o primeiro a mandar construir e a comandar atuneiros oceânicos, o Oceana, em 1919, seguido do Atlantic, do Mayflower, do Cabrillo e do Normandy. Em 1935, o orgulho de Tunaville era o maior atuneiro do mundo, o Cabrillo, com 41 metros e capacidade para 350 toneladas de peixe. Antes disso, em 1897, vinte e cinco pescadores portugueses já haviam fundado a sua própria companhia de pesca; em 1913, José Azevedo abrira a primeira fábrica de conservas de atum, futura San Diego Packing Company. Durante a Primeira Guerra Mundial, a procura de conservas para abastecer as tropas americanas na Europa acelerou toda a indústria.
O resultado é mensurável. A frota atuneira de San Diego chegou a cerca de 250 embarcações, mais do que o resto do mundo somado, e a indústria tornou-se a segunda maior economia da cidade, atrás apenas do setor da defesa. San Diego passou a ser conhecida como a capital mundial do atum. Aqueles pescadores ficaram na memória local por uma expressão que os define: homens de aço em barcos de madeira.
A prova de pertencimento: 1942
Há um episódio que documenta, melhor do que qualquer discurso, o grau de integração desta comunidade. Semanas depois do ataque a Pearl Harbor, a Marinha dos Estados Unidos requisitou os atuneiros de San Diego para o esforço de guerra: eram os únicos navios civis com autonomia, frigoríficos e casco capaz de operar no Pacífico. Cerca de quarenta e nove atuneiros foram mobilizados para transportar tropas e mantimentos, tripulados pelos próprios pescadores portugueses de Tunaville, muitos dos quais se apresentaram como voluntários. Quinze desses navios perderam-se no Pacífico ocidental.
Uma comunidade imigrante entregou a sua frota e os seus homens ao país que haviam feito seu lar. É difícil imaginar uma expressão mais concreta de pertencimento.
As instituições que mantiveram a comunidade unida
Paralelamente ao trabalho, a comunidade construiu as suas instituições, e é aqui que se encontra a documentação que hoje interessa aos descendentes. Em 1920, Manuel Medina percebeu a necessidade de um lugar comum para celebrar a Festa do Espírito Santo e formou uma comissão para angariar fundos por toda a Califórnia. Para erguer a obra, os armadores deixavam em terra um tripulante, pagando-lhe 25 cêntimos por tonelada de peixe. Em 1922 foi inaugurada a União Portuguesa Açoreana Sociedade do Espírito Santo, com capela e salão. A capela, uma das apenas duas capelas portuguesas originais existentes na Califórnia, é uma réplica fiel das capelas da ilha Terceira. Medina foi o seu primeiro presidente, cargo que manteve durante cinquenta e um anos. Em 1948, com o crescimento da imigração, inaugurou-se o salão atual. A instituição acolheu, desde o início, açorianos, madeirenses e continentais sem distinção.
A vida religiosa organizou-se em torno da igreja de Santa Inês (St. Agnes), concluída em 1933 com financiamento dos pescadores, cujo campanário exibia uma imagem iluminada de Nossa Senhora da Boa Viagem, farol permanente para os barcos que regressavam do mar. Ali ainda hoje se celebra missa em português. A Festa do Espírito Santo de San Diego, com mais de um século de existência, é considerada a mais antiga festa étnica da cidade, e mantém a devoção açoriana à Rainha Santa Isabel de Portugal e ao milagre das rosas, tradição de caridade que atravessou setecentos anos e um oceano.
Existe ainda, em La Playa, um Centro Histórico Português, e junto a ele um monumento à indústria do atum inscrito com os nomes das famílias portuguesas locais; na Shelter Island ergue-se o Tunaman's Memorial, dedicado em 1986. E na ponta da península, o Cabrillo National Monument assinala a chegada de 1542, um dos monumentos nacionais mais visitados do país, e símbolo, para esta comunidade, da antiguidade da sua presença.
O que aconteceu depois
A partir dos anos 1950, a concorrência internacional e a mecanização transformaram a pesca; mais tarde, as restrições ambientais empurraram a indústria para o Pacífico Sul. A frota de Tunaville dispersou-se. Os filhos e netos dos pescadores e dos construtores de barcos reconverteram-se, para o imobiliário, para os negócios, para as profissões liberais, para o desporto profissional. Ao longo de seis gerações, esta tornou-se uma das comunidades portuguesas mais prósperas dos Estados Unidos. Muitos casaram fora da comunidade e saíram do bairro, mas continuam a regressar à festa, ao salão, à capela de Terceira.
E é exatamente aí que esta história se torna pessoal, e onde começa a pesquisa documental.
A documentação existe
Ao fim de seis gerações, o que se perde primeiro é o caminho de volta. O sobrenome mudou-se ou anglicizou-se, a língua deixou de se falar em casa, e o nome da freguesia de origem desapareceu da memória familiar. Fica apenas a certeza vaga de que o bisavô veio dos Açores, sem se saber de que ilha, de que aldeia, em que ano, em que navio.
A boa notícia, para quem pesquisa a família, é que a imigração gerou um enorme rastro documental. Havia listas de passageiros elaboradas nos portos de embarque, registos de chegada, processos de naturalização, sistemas de quotas, licenças e matrículas marítimas. Havia, do lado português, os assentos dos consulados, verdadeiros registos civis portugueses em solo americano, os registos paroquiais das ilhas, os róis de passaportes e as licenças de emigração. Existem ainda os arquivos das próprias irmandades e sociedades de auxílio mútuo, que guardavam a naturalidade de cada associado.
A documentação está dispersa entre dois continentes, mas está lá. Reuni-la é trabalho de pesquisa histórica, e é precisamente o que fazemos na Consultoria Mnésis: já refizemos esse percurso para famílias americanas de raiz portuguesa, do sobrenome atual até ao assento de batismo numa freguesia insular. Se a sua família tem raízes em Point Loma, se um antepassado seu pescou o atum de San Diego, ou se em casa se dizia que os avós vieram do Pico, da Terceira, de São Jorge ou da Madeira, essa origem é documentável.
O nome pode ter mudado. O registo, esse, foi escrito, e continua à espera de quem saiba onde procurar.
Das suas raízes ao seu futuro.
