Sobrenomes açorianos que se tornaram americanos, sobre registros de passaporte da comunidade portuguesa de New Bedford. Acervo Consultoria Mnésis.

Acervos · Imigração portuguesa · Estados Unidos

Os portugueses que viraram americanos

Como sobrenomes açorianos atravessaram o Atlântico e viraram nomes americanos, e por que o rastro documental ainda leva de volta a Portugal.

por Thiago Bezerra Vianna · Consultoria Mnésis

Há uma cidade em Massachusetts onde, durante mais de um século, se falou português nas ruas, nas fábricas e nas igrejas. New Bedford foi a capital mundial da caça à baleia, e foi das baleeiras que veio a primeira grande leva de portugueses aos Estados Unidos. No século XIX, os navios americanos recrutavam tripulação nos Açores e na Madeira; muitos daqueles homens desembarcavam para não mais voltar ao mar, e mandavam buscar as famílias. A cidade encheu-se de açorianos. Comunidades inteiras de São Miguel se reconstituíram, rua por rua, à sombra das fábricas de tecido.

O tamanho daquela presença

Quem quiser medir o tamanho dessa presença não precisa de impressões: os números existem, e são eloquentes. Só nos registros de passaporte da comunidade portuguesa de New Bedford e de sua área consular há cerca de dezoito mil pessoas. A grande maioria embarcou entre 1895 e 1930, com um pico nítido logo depois da Primeira Guerra, quase dez mil registros na década de 1920, até que as cotas de imigração americanas de 1924 fecharam a porta quase por completo.

E os sobrenomes que se repetem são os que qualquer descendente reconheceria. Os trinta mais frequentes nesses registros são, por ordem: Silva, Santos, Rodrigues, Ferreira, Pereira (Perry), Fernandes, Costa, Sousa, Gomes, Lopes, Alves, Oliveira (Oliver), Vieira, Almeida, Freitas, Gonçalves, Martins, Medeiros, Andrade, Teixeira, Carvalho, Dias, Pacheco, Cabral, Melo, Amaral, Pires, Souza, Duarte e Nunes, e, entre parênteses, a forma que o nome tomou em inglês, quando é possível rastreá-la. Um deles, desproporcionalmente açoriano, Medeiros, aparece centenas de vezes, revelando de onde veio a maior parte daquela gente.

Um cartório português em solo americano

Essa comunidade não chegou desamparada. Portugal fazia o que sempre fez onde havia portugueses em número: instalava consulados. New Bedford teve o seu, subordinado ao Consulado-Geral em Boston, e a sua jurisdição não se limitava à cidade. Os documentos que ali se produziram vêm também de Pawtucket, Wareham, Central Falls, Woonsocket, Carver, Hudson e de tantas outras povoações vizinhas, ou seja, o consulado respondia por toda uma região de vida portuguesa espalhada por Massachusetts, Rhode Island e Connecticut.

E aqui está o ponto que quase ninguém sabe. Aquele consulado não era apenas uma repartição de vistos: funcionava como um cartório português em solo americano. Nele se lavravam certidões de nascimento, casamento e óbito de cidadãos portugueses; nele se registravam, ano após ano, os filhos de portugueses que nasciam em território americano. Há, nesses acervos, caixas inteiras de pedidos de cidadania portuguesa para crianças nascidas nos Estados Unidos, e livros de assentos e certidões consulares que atestam a nacionalidade de cada registrado. Isso muda tudo. Uma criança filha de portugueses, nascida em New Bedford e assentada no consulado, era portuguesa de fato, por direito de sangue, e a certidão consular não é uma promessa nem uma possibilidade: é a prova. Onde existe esse registro, não cabe o “talvez”. Cabe, no máximo, descobrir onde ele está.

E New Bedford foi apenas um dos muitos centros dessa vida portuguesa. O mesmo se repetiu por todo o país: na Califórnia, para onde os açorianos foram atraídos pela corrida do ouro e onde vieram a dominar a produção de laticínios no vale central; no Havaí, onde desembarcaram para trabalhar nas plantações de cana; em Rhode Island, que teria a maior proporção de descendentes de portugueses de todos os estados americanos; e ainda em Connecticut, na Flórida e em Nova Jersey, onde Newark ganhou o apelido de “Little Portugal”. Cada um desses lugares teve os seus consulados, os seus registros e a sua própria história, que havemos de contar em outras páginas. Por ora, fiquemos em New Bedford.

Não foi Ellis Island

Porque é justamente aí que muita gente se perde. A família guarda a memória de que “o bisavô era português”, mas o sobrenome já não é o mesmo, e o caminho até o documento se apagou. É preciso desfazer, primeiro, um mito antigo.

Conta-se que, ao chegar ao porto, o imigrante era obrigado a mudar de nome por ordem das autoridades. Não foi assim. Os nomes já vinham escritos nas listas de bordo feitas no porto de partida; os funcionários, via de regra, não os alteravam na chegada. A mudança veio depois, e veio de dentro: foi o próprio imigrante quem, para se encaixar na nova terra, começou a adaptar o nome. Entre uma língua latina e uma língua anglo-saxônica, os sons não coincidem, e o sobrenome escorregava, às vezes pela pronúncia, às vezes por tradução pura do sentido. Rocha virou Rock. Pinheiro virou Pine. Barros, que quer dizer argila, virou Clay. Reis, que quer dizer reis, virou King. Moraes virou Morris, Silveira virou Silver, Inácio virou Enos, Oliveira virou Oliver. E Pereira, a árvore de pera, virou, com uma naturalidade quase perfeita, Perry.

Esses não são exemplos avulsos. Estão nos próprios registros daquela gente. No mesmo índice de dezoito mil passaportes, mais de quatrocentas pessoas traziam o sobrenome Pereira; outras tantas, o sobrenome Rosa, que na América viraria Rose. Havia dezenas de Rocha, de Silveira, de Pinheiro, de Barros. Cada um desses nomes é uma família que atravessou o oceano e, do outro lado, aos poucos, deixou de se escrever como se escrevia.

De Pereira a Perry

O leitor talvez conheça alguns desses sobrenomes sem saber de onde vêm. Katy Perry adotou o nome artístico do sobrenome de solteira da mãe: Perry, que na origem é Pereira, de raiz açoriana em Faial. Joe Perry, guitarrista do Aerosmith, nasceu Pereira, o avô, vindo da Madeira, mudou o nome ao chegar. Steve Perry, a voz do Journey, era filho de Raymond Perry, nascido Pereira; o avô, João Pereira, virou John Perry ao desembarcar. E a compositora Linda Perry, também de família portuguesa, cresceu ouvindo que não devia falar português, embora os avós falassem. Três, quatro artistas, ilhas diferentes, um só sobrenome que se apagou da mesma maneira.

Até o nome mais americano de todos pode esconder um português. O sobrenome materno de Tom Hanks é Frager. Frager é a forma anglicizada de Fraga, uma família açoriana da ilha das Flores. Na sua árvore aparecem ainda Rosa, que virou Rose, e Inácio, que virou Enos. O homem que interpretou os grandes heróis do imaginário americano carrega, no próprio nome de família, a marca de uma travessia que começou nos Açores.

É esse o ponto onde a história deixa de ser sobre celebridades e passa a ser sobre gente comum. Muitos americanos carregam um desses sobrenomes, ou ouviram na família que “havia um português” algumas gerações atrás, sem saber por onde começar a procurar. A documentação existe. Ela apenas está dispersa: entre os arquivos portugueses, os arquivos e os portos americanos, as listas de embarque das baleeiras e, sobretudo, os registros dos consulados, onde em alguns casos cada nascimento, cada casamento e cada assento de nacionalidade foi cuidadosamente lavrado. Reunir esses fios, refazer o caminho que vai do Perry de hoje ao Pereira de ontem, é trabalho de historiador e de pesquisa documental.

O sobrenome mudou. O vínculo, não. Ele continua ali, escrito à mão, à espera de que alguém saiba onde procurar. Se um desses nomes é o seu, pode ser que a sua história comece do outro lado do Atlântico, e vale a pena investigar.

Das suas raízes ao seu futuro.

A história da sua família deixou documentos.

Se você reconheceu um sobrenome, uma cidade ou uma trajetória, podemos verificar o que os arquivos guardam sobre os seus antepassados.

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