A babilônia nominal lusitana · O Ofício do Historiador, Consultoria Mnésis

A babilônia nominal lusitana

O Ofício do Historiador

por Thiago Bezerra Vianna, historiador · Consultoria Mnésis

Um dos enganos mais frequentes de quem começa a investigar a própria família é acreditar que o sobrenome funciona hoje como funcionava há dois ou três séculos. A pessoa encontra dois irmãos com apelidos diferentes e conclui que houve erro, ou que não eram irmãos de verdade. Encontra uma bisavó sem sobrenome nenhum e imagina um documento incompleto. Encontra o mesmo nome escrito de maneiras distintas e desconfia de fraude. Nada disso costuma ser erro. É apenas o funcionamento de um sistema que obedecia a uma lógica muito diferente da nossa, e que, para olhos desavisados, parece uma babilônia.

A ausência de regra

Comecemos pelo essencial. No mundo português antigo, antes do século dezenove, não havia regra rígida de transmissão de sobrenomes. Um filho podia receber o apelido do pai, o da mãe, o de um avô ou até o de um padrinho. A escolha era livre, e os genealogistas chegam a chamar o longo período iniciado no fim do século dezesseis de fase de indisciplina onomástica, porque as pessoas usavam apelidos diferentes dos pais e dos irmãos, buscando-os no pai, na mãe, nos avós, nos tios, ou onde bem entendessem. O historiador Nuno Gonçalo Monteiro observa que, não havendo em Portugal norma legal sobre o assunto, o primeiro apelido era em regra o paterno, mas podia-se escolher livremente entre os usados pelos pais ou pelos quatro avós, e por isso eram frequentes os casos de irmãos que não usavam o mesmo sobrenome.

Isso significa que a continuidade do apelido paterno, que hoje nos parece natural e quase obrigatória, era apenas uma tendência, não uma lei. Bastava uma vontade, uma homenagem, uma conveniência, e a linha se quebrava.

O afilhado e o padrinho

O caso mais eloquente dessa quebra é o do padrinho. Ainda que houvesse a inclinação de o filho homem dar continuidade ao apelido do pai, acontecia de a família querer homenagear o padrinho, e então a criança, mesmo sendo o suposto continuador do nome paterno, acabava incorporando o sobrenome do padrinho. Escolhia-se, com frequência, o apelido da família mais importante, mais rica ou mais influente, aquela cujo nome trazia mais proveito à criança. Não havia nisso nada de irregular. Era uma estratégia social, e quem pesquisa precisa contar com ela, porque é ela que faz um filho aparecer, de repente, com um sobrenome que não vem nem do pai nem da mãe.

As mulheres, um caso à parte

Se entre os homens já havia variação, entre as mulheres o quadro é ainda mais solto. Muitas simplesmente não carregavam apelido de família. Como mostrei ao tratar da mulher que não mudava de nome, era comum que a mulher, sobretudo a do povo, levasse apenas um nome de consagração no lugar do sobrenome, uma Maria da Encarnação, uma Maria de Jesus, uma Maria do Perpétuo Socorro, nomes de santos ou de padroeiros a quem fora consagrada. Isso não é sobrenome. E quem o toma por sobrenome sai à caça de uma linhagem que nunca existiu.

Entre as que tinham apelido, havia uma tendência, não fixa, de as filhas seguirem a linha materna e os filhos a paterna. Deixe-me ilustrar com um caso do tipo que encontro. Imagine uma Maria Balbina da Silva, filha de um Francisco Mascarenhas. Repare que ela não leva o Mascarenhas do pai. Leva o Silva, porque era filha de uma Hermelinda da Silva. E a filha dessa Balbina volta a ser uma Maria José da Silva. O apelido Silva desce por três gerações pela linha das mulheres, ignorando por completo o Mascarenhas do homem. Quem procurasse a filha pelo sobrenome do pai jamais a encontraria. Ela está do outro lado, na linha da mãe e da avó.

O mesmo nome, três rostos

O ponto em que essa babilônia se torna mais visível é quando ela se acumula num único documento. Já tive em mãos passaportes, que são documentos oficiais, em que a mesma mulher aparece registrada de três formas. Uma Maria José da Moita, também conhecida por Maria José Caranguejeira, também conhecida por Maria José da Silva. Três identidades para uma só pessoa, declaradas lado a lado no mesmo papel. E isto não é exceção, nem curiosidade rara. É comum. Acontece com mulheres e acontece também com homens. A mesma pessoa transitava pela vida sendo nomeada de acordo com quem a nomeava, a paróquia, o vizinho, o tabelião, e cada um a fixava de um jeito.

Onde o nome se fixava

Há uma razão prática para tanta variação, e conhecê-la é meio caminho andado numa pesquisa. No batismo, o padre costumava registrar apenas o nome próprio, sem grande preocupação com apelidos, e é comum que os pais de uma mesma pessoa apareçam com sobrenomes diferentes de um assento de filho para outro, sobretudo a mãe. O nome só se fixava, de fato, na altura do casamento. Por isso os assentos de casamento são, quase sempre, os documentos mais completos e mais confiáveis para se conhecer os apelidos verdadeiros de uma família. Quem pesquisa aprende a ancorar-se no casamento e a tratar o batismo com cautela, sabendo que ali o nome ainda flutuava.

O nome de consagração que virou sobrenome

Essa fluidez toda, além de confundir quem lê, atrapalha a própria pesquisa, porque muitas vezes nos deixa sem saber ao certo o que procurar. Deixe-me dar o exemplo mais claro. Imagine uma mulher batizada em Portugal como Maria dos Anjos. Ali, do outro lado, "dos Anjos" não é sobrenome. É nome de consagração, como "de Jesus" ou "da Encarnação". Ela atravessa o Atlântico sem carregar apelido de família nenhum. E se for mãe solteira, o que transmitirá aos filhos? A única coisa que tem. Assim, o filho vira Manuel dos Anjos, Francisco dos Anjos, e aquilo que nascera como devoção religiosa se transforma, já em solo brasileiro, num sobrenome de família.

O mesmo aconteceu em toda parte para onde o português migrou, no Brasil, nos Estados Unidos, onde quer que fosse. O nome de consagração, ao cruzar a fronteira, endureceu e virou apelido. E aqui está a armadilha para o leigo. Ele pega o "dos Anjos" do neto brasileiro e vai procurá-lo nos registros portugueses como se fosse um sobrenome de linhagem, atrás de uma família Anjos que nunca existiu em Portugal. A pista, que parecia sólida, dissolve-se na origem. Só se resolve um caso desses entendendo a contemporaneidade daquele momento, sabendo que um mesmo nome pode ter sido devoção de um lado do mar e sobrenome do outro.

Ler o caos com método

Diante de tudo isto, o pior que um pesquisador pode fazer é exigir do passado a coerência do presente. Se eu procurar apenas o apelido do pai, perco a filha que seguiu a mãe. Se descartar um documento porque o sobrenome não bate, jogo fora a peça certa. A babilônia nominal lusitana não é desordem gratuita. É um sistema com a sua própria lógica, em que o nome dizia menos sobre uma regra de sangue e mais sobre laços, devoções e conveniências. Por isso eu sigo todas as linhas ao mesmo tempo, a do pai, a da mãe, a dos avós, a dos padrinhos, e leio as variações não como erros a corrigir, mas como pistas a interpretar. Um nome, no mundo português antigo, não era uma etiqueta fixa. Era um retrato do lugar que a pessoa ocupava entre os seus. E aprender a lê-lo é aprender a enxergar a família inteira por trás de uma só linha escrita.

Há ainda uma outra família inteira de nomes adotados que salta da documentação, os Manuel exposto, a Raimunda exposta, o José exposto, nomes que carregam, na própria palavra, uma história de abandono e acolhimento. Mas essa é matéria para um próximo capítulo.

Das suas raízes ao seu futuro.

Um sobrenome que mudou de mãos não apaga a origem.

Se a sua família se julga sem origem por causa de um sobrenome que não bate, podemos seguir cada linha do nome até o começo.

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