De todas as rotas da emigração portuguesa para os Estados Unidos, nenhuma foi tão longa nem tão improvável como esta. Os que partiram para New Bedford atravessaram o Atlântico. Os que foram para a Califórnia contornaram um continente. Mas os que partiram do Funchal e de Ponta Delgada rumo ao Havaí desceram todo o Atlântico até ao cabo Horn, dobraram a ponta da América do Sul e subiram o Pacífico inteiro. Eram quatro, cinco, seis meses de viagem, com mulheres, filhos e idosos a bordo, para chegar a um arquipélago que quase ninguém em Portugal sabia situar no mapa. Chegaram. E ficaram.
Por que o Havaí precisava deles
Para entender esta migração é preciso compreender o que era o Havaí no século XIX. Não era colónia de ninguém: era um reino independente, com dinastia própria e relações diplomáticas com meio mundo. Mas era um reino em crise demográfica. A população nativa havaiana entrara em queda acentuada desde o contacto com os europeus, e ao mesmo tempo o arquipélago rendia-se ao açúcar. A cana exige uma coisa acima de todas: trabalho, em quantidade enorme e contínua. Plantar, sachar, cortar, carregar, moer.
Os primeiros trabalhadores contratados vieram da China e do Japão. Mas os proprietários das plantações queixavam-se de que eram homens sozinhos, que cumpriam o contrato e regressavam. O governo do rei Kalakaua queria outra coisa: gente que viesse para ficar e ajudasse a repovoar as ilhas.
Foi então que dois homens apontaram o mesmo caminho. Um botânico alemão, William Hillebrand, percorrera a Madeira nos anos 1860 e ficara impressionado com o modo como aquela gente trabalhava encostas quase verticais. E, em Honolulu, um comerciante português sugeriu ao governo havaiano que procurasse braços na Madeira, onde uma praga destruíra as vinhas e mergulhara a ilha na fome e no desemprego.
O nome desse comerciante merece atenção especial, e voltaremos a ele.
Os contratos e os navios
Em novembro de 1877 redigiu-se o contrato-tipo. As condições: 36 meses de trabalho, 26 dias por mês, dez horas diárias. Ao homem pagavam-se dez dólares americanos por mês, mais alimentação, alojamento com um pedaço de terreno e assistência médica gratuita. Mulheres e crianças recebiam salários menores em condições semelhantes. A passagem, que era o custo mais pesado de todos, era paga pela Comissão de Imigração do Havaí, e só era cobrada ao imigrante se este rompesse o contrato.
A 30 de setembro de 1878, ao fim de três meses e vinte e seis dias de viagem, a barca alemã Priscilla entrou no porto de Honolulu com cerca de 120 madeirenses a bordo. Eram mecânicos, pedreiros, carpinteiros, agricultores. Foi o começo.
Depois da Priscilla vieram, ano após ano, os outros. O Ravenscrag, em agosto de 1879, com 419 pessoas ao fim de 123 dias de viagem desde a Madeira. O High Flyer, que trouxe os primeiros açorianos em 1880, e voltou em 1881. O Suffolk, o Earl Dalhousie, o Monarch, o Hansa com 1.177 pessoas, o Abergeldie, o Hankow com 1.462, o Bell Rock com 1.405, e tantos outros. Mais tarde, já sob a república e depois sob domínio americano, o Braunfels, o Kumeric, o Orteric, o Willesden, o Ascot.
Ao todo, vinte e seis navios entre 1878 e 1913. As estimativas variam entre dezasseis e vinte mil pessoas. Essa diferença explica-se porque nas últimas viagens vinham também espanhóis e continentais, porque havia clandestinos a bordo, e porque nasciam crianças durante a travessia.
O impacto demográfico foi extraordinário. Em 1878, o censo havaiano registava apenas 438 portugueses numa população de quase 58 mil, menos de 0,8%. Em 1900, os portugueses eram cerca de 18 mil, mais de 10% da população do arquipélago. Numa geração, uma comunidade inteira foi transplantada de duas ilhas do Atlântico para um arquipélago do Pacífico.
Quem eram, e de onde vinham
Esta é a parte que mais interessa a quem hoje procura os seus antepassados. Os primeiros navios partiram da Madeira, do Funchal e das freguesias em volta. A partir de 1880, começaram a sair também dos Açores, sobretudo de São Miguel (Ponta Delgada) e do Faial (Horta), e mais tarde de outras ilhas. Nas últimas levas vieram também portugueses do continente.
E vinham em famílias inteiras, o que é uma grande diferença de outras imigrações portuguesas, em que os homens iam na frente. Foi essa, aliás, a razão de os terem preferido. Enquanto os contratos com trabalhadores chineses previam apenas homens solteiros, aos portugueses permitiu-se trazer mulheres, filhos, sogros, irmãos. Basta olhar os números de uma viagem qualquer para o perceber: no Hankow, em 1883, vieram 427 homens, 317 mulheres e 718 crianças. Nas listas de passageiros, as crianças são quase sempre o grupo maior. Não era mão-de-obra que embarcava: era um povo.
Os sobrenomes que desembarcaram nessas listas são os que ainda hoje se repetem por todo o Havaí, e é por eles que muitos descendentes começam a procurar: Silva, Freitas, Medeiros, Souza, Perry (Pereira), Fernandes, Rodrigues, Gouveia, Nunes, Correia, Vieira, Cabral, Ferreira, Câmara, Botelho, Rego, Pacheco, Andrade, Machado, Teixeira, Melo, Furtado, Faria, Jardim, Abreu, Ornelas. Em nenhum outro estado americano os sobrenomes Silva e Freitas têm concentração tão alta, nada mais, nada menos do que frutos daquelas plantações.
Uma advertência útil a quem pesquisa: nos registos portugueses do século XIX é comum que filhos do mesmo casal tenham apelidos diferentes, um leva o do pai, outro o da mãe, outro o de um avô. Quem procura por um único sobrenome procura mal. E isso é quase uma regra no universo português do século XIX.
Onde se fixaram
Os portugueses distribuíram-se pelas plantações das quatro ilhas principais: Oahu (onde fica Honolulu), Maui, Kauai e a Ilha Grande. Em Honolulu, a comunidade concentrou-se nas encostas de Punchbowl, e as ruas ainda hoje guardam a memória: Lusitania Street, Funchal Street, Azores Street.
Nas plantações e nas vilas ergueram o que sabiam erguer. Construíram casas e igrejas em pedra vulcânica, à maneira das ilhas, quando tudo à volta se construía em madeira. Fundaram sociedades de socorros mútuos: a Sociedade Lusitana Beneficente do Havaí, a Sociedade Portuguesa de Santo António, a Court Camões, a Sociedade Madeirense, a Sociedade de São Martinho. Imprimiram jornais em português em Honolulu. E levaram consigo as festas do Divino Espírito Santo, que ali se celebram até hoje. A igreja do Espírito Santo de Kula, em Maui, com o seu altar dourado e a via-sacra assinalada em português, é a prova mais bonita disso.
O cônsul que se chamava Pereira e assinava Perry
Volto ao comerciante que sugeriu ao rei que fosse buscar gente à Madeira. Chamava-se Jacinto Pereira. Nascera no Faial, nos Açores, e chegara ao Pacífico como baleeiro, porque antes da cana houve a baleia, e foi ela que levou os primeiros açorianos ao Havaí, desertando dos navios americanos que os recrutavam nas ilhas.
Jacinto Pereira deixou o mar, abriu uma loja de tecidos em Honolulu, prosperou, mandou construir um edifício comercial com as cinco quinas de Portugal esculpidas sobre cada porta, e tornou-se o primeiro cônsul honorário de Portugal no reino do Havaí. Só que, no Havaí, Jacinto Pereira assinava Jason Perry.
É a mesma metamorfose que encontramos em toda a diáspora portuguesa de língua inglesa, Pereira que vira Perry, como no Massachusetts, como na Califórnia. Aqui, porém, com uma ironia particular: o homem que representava oficialmente Portugal já usava o nome anglicizado. E um filho seu, António Perry, viria a ser presidente do Supremo Tribunal de Justiça do Havaí nas décadas de 1920 e 1930. De filho de baleeiro açoriano a mais alto magistrado do território, em duas gerações.
A partir de 1882, Portugal e o Havaí assinaram uma Convenção Provisória, e abriu-se em Honolulu um consulado de carreira. O primeiro cônsul-geral, António de Sousa Canavarro, fiscalizava o cumprimento dos contratos, inspecionava as habitações e as condições sanitárias, e enviava para Lisboa relatórios sobre a vida daquela gente. Esse consulado produziu documentação, e é ela, hoje, parte do caminho de volta.
O que deixaram
O trabalho na cana foi um meio, não um fim. Cumprido o contrato, muitos saíram das plantações: tornaram-se mecânicos, carpinteiros, ferreiros, pequenos agricultores, comerciantes nas cidades. Outros seguiram para a Califórnia. Poucos regressaram às ilhas atlânticas.
Ficou o legado. Ficou a cozinha, a linguiça, o chouriço, a carne de vinha-d'alhos, o pão doce, as malassadas, hoje presentes no quotidiano havaiano. Ficou a palavra paniolo, com que ainda se designam os vaqueiros do Havaí. Ficaram as festas do Espírito Santo.
E ficou, sobretudo, um pequeno instrumento de quatro cordas. Chamava-se machete ou braguinha na Madeira, cavaquinho nos Açores. Veio a bordo do Ravenscrag, em 1879, e foi tocado no cais de Honolulu na noite da chegada. Três carpinteiros madeirenses que vinham naquele navio, Manuel Nunes, Augusto Dias e José do Espírito Santo, começaram a fabricá-lo nas ilhas. O rei Kalakaua adorou o som. O instrumento mudou de nome e tornou-se o símbolo sonoro do Havaí: o ukulele. Manuel Nunes está enterrado no cemitério católico da King Street, em Honolulu.
O caminho de volta
Hoje, mais de quatro por cento da população do Havaí declara ascendência portuguesa. Passaram-se cinco, seis gerações. Muitos casaram fora da comunidade, e a língua perdeu-se quase por completo. Os descendentes mantiveram os nomes e os apelidos, que continuam a representar uma forte ligação emocional, mas foram cortando as raízes que os ligavam ao Velho Mundo.
É esse o nó. Sabe-se que o bisavô veio das ilhas. Não se sabe de qual, nem de que freguesia, nem em que navio, nem em que ano.
Mas essa informação existe. Existem as listas de passageiros dos vinte e seis navios. Existem os registos das plantações, com os nomes e os números de contrato de cada trabalhador. Existem os livros paroquiais das igrejas católicas do Havaí, os cemitérios, os jornais em português de Honolulu, os arquivos das sociedades de socorros mútuos. Existe a documentação do consulado português em Honolulu e a correspondência que dali seguia para Lisboa. E existem, do outro lado do mundo, os registos paroquiais e civis da Madeira e dos Açores: batismos, casamentos, óbitos, passaportes e licenças de emigração, freguesia por freguesia.
O trabalho consiste em ligar as duas pontas: o sobrenome de hoje, no Havaí, ao assento de batismo numa freguesia de Câmara de Lobos, de Ponta Delgada, da Horta ou de Santana. É pesquisa documental, feita em arquivos de dois continentes, e é exatamente isso que fazemos na Consultoria Mnésis.
Se a sua família chegou ao Havaí num daqueles navios, se em casa se dizia que os bisavós vieram da Madeira ou dos Açores para a cana, essa travessia foi registada. Alguém escreveu o nome deles num livro, há cento e tantos anos, e esse livro ainda existe. Falta apenas ir buscá-lo.
Das suas raízes ao seu futuro.
